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terça-feira, 2 de outubro de 2012

Nota Zero em "Ética Cristã" para o Jesus dos Evangelhos



Por  Levi B. Santos

1.  Muito embora Jesus tenha denominado o Rei Herodes de “raposa” ─, não convém ao crente assim proceder. Devemos dispensar o melhor tratamento às autoridades, mesmo que elas tenham, às vezes, condutas irregulares e hipócritas. Está escrito: “Toda autoridade provém de Deus”.

2 . Muito embora Jesus tenha cognominado de “sepulcros caiados”, os homens da Lei que estavam sentados na cadeira de Moisés ─, não é conveniente ao cristão assim o fazer. A boa ética manda que o crente tenha sabedoria e controle emocional, a fim de que não caia na tentação de detratar as pessoas.


3 . Muito embora Jesus não tenha encontrado onde repousar a cabeça ─, não é conveniente ao crente está falando mal das autoridades religiosas que enriqueceram graças aos seus extraordinários dons. As mansões, os carrões, as chácaras e o mar de riquezas que essas autoridades possuem, foram frutos do seu honesto trabalho. Está escrito: “Todo obreiro é digno do seu salário”.


4. Muito embora Jesus em sua missão tenha ido buscar pessoas para serem discipuladas, “extra-muros” do Templo ─, não é de boa norma, o crente organizar grupos para o ensino da palavra por aí afora. O Templo é o único local adequado para esse fim. Está escrito: “Alegrei-me quando me disseram: vamos à casa do Senhor”.


5 . Muito embora Jesus tenha entrado no templo, armado de chicote para expulsar os poderosos que faziam da Casa de Deus uma “bolsa de valores” ─ não é conveniente ao crente de forma desastrada, assim se comportar. Está escrito: “Não é por força nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor”.


6 . Muito embora Jesus tenha reprovado os religiosos de sua época, por adorarem os primeiros lugares no templo ─, não é ético para o cristão assim proceder. Em todas as igrejas, é de praxe, que os primeiros assentos sejam destinados às autoridades eclesiásticas. Está escrito: “A quem honra, honra”.


7 . Muito embora Jesus não tenha tomado uma atitude enérgica, quando os discípulos seus, invadiram um roçado de milho alheio, para saciar a fome num dia consagrado ao descanso ─, não convém ao crente assim proceder. Mesmo estando faminto, não ouse tirar nada de alguém, sem plena autorização. Está escrito: “Pedi e dar-se-vos-á”. Portanto, basta dobrar os seus joelhos e orar.


8 . Muito embora Jesus não tenha respondido a pergunta de Pilatos, sobre “o que era a verdade” ─, não convém ao crente, deselegantemente, silenciar diante da pergunta feita por uma autoridade. Peça a Deus sabedoria e Ele porá a palavra certa em sua boca. Está escrito: “Se estes se calarem, até as pedras clamarão”.


9 . Muito embora Jesus tenha dito de forma pública, que os escribas e fariseus, apesar de serem dizimistas, negligenciavam o mais importante, como a justiça, a misericórdia e a fé ─, é atitude reprovável e contrária à ética, o cristão expor aos quatro cantos do mundo uma simples falta (perdoável) dos seus superiores, ainda mais, se eles estiverem sentados na cadeira de Moisés. Está escrito: “E o oferecerá com a oferta sobre o altar, e assim o sacerdote fará expiação por ele, e será limpo”.


10. Muito embora Jesus tenha se posicionado contra os fariseus que enfrentavam todo tipo de obstáculos para ganhar almas, ocasião em que os denominou de duas vezes filhos do inferno ─, não é de bom alvitre o crente tomar tão irredutível atitude. Está escrito: “Mas que importa? Contanto que Cristo de qualquer modo, seja anunciado, ou por pretexto, ou por verdade... .” (Filipenses 1: 18).



P.S.: Este Manual de Ética foi postado originariamente no "Ensaios & Prosas" em março de 2009 com o título  - "Dez Conselhos Legalistas Sobre Ética Cristã".

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Assim Na Terra Como No “Céu”



Por Levi B. Santos

Quis o destino que o patriarca e a matriarca da grande família partissem juntos dessa, para outra. Os amigos e os familiares do casal de velhos, depois de muitos entreveros, concordaram em fazer cerimônias fúnebres distintas, obedecendo aos ritos religiosos de cada um deles. É que o senhor Celestino de Jesus era um renhido protestante seguidor doFilho de Maria, e a senhora, Maria Anunciada da Conceição, uma católica devota deNossa Senhora.

A um simples olhar, denota-se que a ancestralidade cultural dos pais dos defuntos está bem presente nos nomes que eles deram aos seus filhos, nascidos quase que na mesma época (1924 e 1926).


O gerente da maior empresa funerária da cidade, como sempre costumava fazer, perguntou ao familiar (contratante do enterro), qual era a religião que o casal professava, para preparar o ambiente de acordo com as tradições e rituais próprios dos falecidos. Ficou pasmo e quase sem fala, quando ouviu que deveria preparar dois velórios: um para o católico e outro para a protestante, em um só salão, ainda mais com a alegação extravagante de que as cerimônias seriam simultâneas, pois os velhos, nunca tinham deixado de viver juntos, se separando apenas nas ocasiões dos seus obsessivos cultos religiosos.

Depois de pedir um tempo para pensar, o vendedor de enterros chegou finalmente a uma genial solução: cobraria um preço mais alto e inovaria a indumentária de sua funerária, ao adquirir um biombo (espécie de cortinado retrátil de PVC na cor dourada) para separar os dois ambientes “pré-celestiais”, tudo em conformidade com os ricos castiçais e candelabros banhados a ouro de sua empresa.

Todos nós sabemos que um fato inusitado como esse, chega rapidamente aos ouvidos da população. E foi justamente o que aconteceu. 

O prefeito da cidade, eleito pelas duas maiores comunidades religiosas rivais, temendo grande tumulto por ocasião da dupla cerimônia fúnebre agendou uma reunião de urgência com sua equipe multi-denominacional de fiéis. Chegaram então a um consenso, afinal: nas cerimônias simultâneas nem o padre rezaria “Santa Maria, rogai por nós”, nem o pastor falaria que “só Jesus é o único intercessor entre Deus e os homens”. Ficou acertado, também, que uma história bíblica não poderia, em nenhuma hipótese, ser ventilada na dupla encomendação dos mortos: a parábola que mostra o pobre mendigo, Lázaro, sendo recebido no céu e um rico avarento nas chamas do inferno, gritando para que lhe molhem a língua. Ainda, duas passagens da Bíblia não poderiam ser tocadas: O pastor estaria proibido de ler uma parte que seus fiéis adoram muito ― àquela que os evangelistas atribuem a Jesus −, numa ocasião em que estava sendo importunado por sua mãe, quando assim falou veementemente: “Mulher, que tenho eu contigo?!”. O padre, por sua vez, estaria terminantemente proibido de citar a parte inicial do “Magnificat”: “Bendita és tu entre as mulheres”.

Quanto ao uso dos símbolos religiosos não houve questionamentos: o defunto protestante portaria a Bíblia sobre o pedestal funerário atrás do seu caixão, e a católica morta exibiria o Cristo crucificado num altar acima de sua cabeça. De maneira nenhuma seria permitido a cruzada, isto é, a passagem dos adeptos da Mãe de Deus  para o outro lado da cortina, reservada aos fieis do Filho de Deus, e vice-versa.

domingo, 25 de março de 2012

A casaca marrom (By Gondim)


 


Ricardo Gondim


A casaca marrom do monge Bertoldo, morto há dois anos, seria vendida em leilão. Considerado um santo homem alguém arremataria sua veste como relíquia.


Mas Margô não a desejava como um talismã. Ela tinha outros planos para a roupa monástica. Passou o dia procurando e juntando o dinheiro que imaginava necessário para trazer a famosa casaca para casa. Daria de presente ao marido na esperança não de o agasalho bento atrair alguma virtude, mas servir de inspiração.  Enquanto caminhava na direção do edifício onde seria o leilão, Margô imaginava Joabe se abotoando. Aquecido, ele guardaria, no inverno, as virtudes que lhe faltaram no verão.


O arremate não foi complicado. Ninguém havia juntado tanto dinheiro. Antes do martelo bater a terceira vez, a única herança do monge passou para as mãos de Margô.


Ao chegar em casa, Margô esparramou a blusa sobre uma mesa. Alisou as mangas com o cuidado dos padres quando esticaram o Sudário na lâmina de vidro que o preserva até hoje. No bolso do lado direito, achou uma folha de papel dobrada três vezes. Os vincos estavam apertados em cada dobra. Atônita, Margô leu a única escrita que Bertoldo deixou:


Sinto falta de algo que todos os compêndios ainda não conseguiram decifrar. Tenho sede de uma água que nem sei bem se existe ou como sacia minha alma. Meus sonhos, agora com idade, sei: eles nunca se cumprirão. Quero um país que só visitei em viagens para dentro do meu coração – um país tão próximo e, ao mesmo tempo, tão impossível. Escrevo. Medito. Tranco-me. Enfurnado em minha própria cela, oro. Minhas preces não passam na maioria das vezes de silêncios dirigidos aos confins do universo. Medito. As minhas meditações esfumaçam a linha que separa o meu presente do porvir. O que fazer? Sei, não há resposta. Resta-me o doloroso e fascinante dever de continuar. Amedrontado e poucas vezes afoito, sigo.

 Margô escureceu a blusa marrom com suas lágrimas. Ela não chorava por Bertoldo. Chorava por si mesma. As palavras que acabara de ler eram na verdade o clamor de seu próprio coração


Soli Deo Gloria 
 

segunda-feira, 19 de março de 2012

Uma parábola e o fim do debate arminianismo x calvinismo


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By Roger


A maioria das pessoas sensatas que conheço conseguem conviver bem com as duas realidades: livre arbítrio xpresciência divina, sem o versus no meio.
Já, as poucas pessoas sensatas que conheço conseguem perceber que ambos os termos são exageros etimológicos. Primeiro, porque toda destinação só pode ser “pré”: Não há como darmos um destino para algo a não ser de antemão. Segundo, porque todo arbítrio é livre: Se não for livre não é arbítrio, não é escolha, é imposição.
Se reduzirmos esse antigo embate teológico aos termos “destinação” e “escolha”, veremos que no fundo ele se resume a uma só palavra: “vontade”. Vontade tem, no seu sentido ativo, tudo a ver com futuro.

Daí a conseqüência lógica de, uma vez havendo o exercício da vontade e havendo conseqüências futuras, averiguarmos as "responsabilidades", pelo lado humano ou divino (que como todos sabem deveria ser onisciente).

Eis a relevância do post de Clóvis Onisciência e responsabilidade extraído de um tal de Carl Henry.
Antes de estragar esse lindo debate com minha estranha posição ou estranhas citações me reportarei àquilo que Jesus disse sobre o assunto enquanto andou por essas bandas em carne e osso. O problema é que Ele põe fim à discussão. Tudo começou quando alguém lhe perguntou quem era o seu próximo e ele contou uma historinha que ficou conhecida como parábola do bom samaritano, antes disso ele já havia dito no versículo 21:

"Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e cultos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, pois assim foi do teu agrado."
A historia foi mais ou menos assim:

"Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto.

Aconteceu estar descendo pela mesma estrada um sacerdote 
(que era arminiano). Quando viu o homem, passou pelo outro lado. (pois pensou, se ele está assim foi fruto de sua própria escolha – deveria ter-se previnido ou escolhido um caminho mais seguro - ou da escolha de alguns bandidos, em última análise, é um problema social que vivemos é culpa dessa tirania de Roma e eu não tenho nada a ver com isso, não é "minha" responsabilidade.) 

E assim também um levita (que era calvinista); quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado. (pois pensou, se ele está assim foi fruto do plano de Deus – deve estar sendo punido - ou Deus usará essa situação para punir os assaltantes, quem sabe até tudo não resultará no bem desse pobre coitado, afinal só podemos enxergar esse lado feio do tapete e eu como eleito prefiro permanecer do lado bonitinho). 

Mas um samaritano (que não sacava nada de teologia); estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele
Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele.

No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e lhe disse: 'Cuide dele. Quando eu voltar lhe pagarei todas as despesas que você tiver'. 
(pois pensou, porque ele está assim eu não sei… mas poso fazer disso um plano de Deus para mim, e da minha escolha o plano de Deus pra ele).
Jesus sempre que não dá ponto sem nó e nunca deixou o tapete ao avesso. Pergunta e responde:
"Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?"

"Aquele que teve misericórdia dele", respondeu o perito na lei. Jesus lhe disse: "Vá e faça o mesmo".
A Parábola do bom samaritano põe fim ao debate, arminianismo x calvinismo. No fundo podemos trocar a bel prazer as correntes, católico x protestantes, católicos x ortodoxos, pentecostais x tradicionais e assim por diante. E assim, ele põe fim a todo debate teológico.
Resta-nos então lembrarmos o propósito maior daquela parábola que é mostrar-nos quem é o nosso próximo. Está claro: Aquele que tem misericórdia de nós (que ironicamente não é um arminiano e nem um calvinista).
 

quinta-feira, 15 de março de 2012

INTOLERANCIA - O julgamento do pastor Estêvão


 


O julgamento do pastor Estêvão


Era um domingo muito tenso na reunião da Igreja. Ao invés de estarem todos se confraternizando e louvando a Deus, os membros da congregação compareceram ali para acompanhar passivamente o conselho eclesiástico decidir pela expulsão do pastor Estêvão.

O pastor Estêvão era um homem muito popular e querido pelos evangélicos, católicos e até por pessoas da cidade que não seguiam a nenhuma religião. Promovia diversas atividades sociais, bem como organizava protestos contra os políticos corruptos, o que incomodava bastante os interesses dos poderosos e dos líderes eclesiásticos locais. Contudo, nada podia ser dito contra a sua reta conduta. Ele apenas era visto com desconfiança por sua posição teológica liberal pelos que tinham mais apego doutrinário à ortodoxia. Só que, desta vez, o ousado pastor tinha deixado perplexos os crentes conservadores daquele lugar. Na semana anterior à reunião, Estêvão fora denunciado ao bispo presidente do conselho por ter celebrado uma união homo-afetiva entre duas lésbicas.

Para que o estatuto da igreja fosse cumprido, uma assembleia geral precisou ser convocada e o pastor Estêvão teria que ser ouvido. E foi o que prontamente fizeram os principais conselheiros porque aquela era a grande chance que tinham para afastar da liderança o irmão herege e perturbador do sistema econômico e social.

Levantando-se no meio de todos, após ter cumprimentado os irmãos com a "paz do Senhor" e explicado porque estavam todos reunidos ali, o bispo Ananias passou a inquirir o réu:

- “É verdade isto que andam falando a seu respeito? Tem quinze minutos para se defender”

A esta pergunta respondeu o pastor Estêvão, deixando sua cadeira e tomando o microfone:

- “Meus queridos irmãos e irmãs. Por favor, sejam capazes de me ouvir. Como ensino aos meus alunos do seminário, o glorioso Deus inspirou os autores da Bíblia afim de orientarem o povo de Israel na sua caminhada histórica. Porém, todos eles foram homens de carne e osso, iguais a mim e a vocês, cujos corações sentiram-se motivados para escrever coisas que, conforme seus valores, consideravam serem as corretas. E deste modo, de acordo com a necessidade do povo, ensinaram preceitos direcionados à realidade social da época, fazendo tudo com sensibilidade, mas sempre dentro de seus valores culturais e pessoais. Ao terem testemunhado diante da nação israelita, seus discursos foram atualizados em conformidade com o novo contexto histórico da época dos escribas redatores dos textos bíblicos nas gerações seguintes. E foi desta maneira que surgiram os escritos das partes da Bíblia que a cristandade chama de Antigo Testamento e o mesmo se aplica ao Novo Testamento.”

Até aí muitos ouviam aquelas palavras com alguma admiração. Outros, porém mais versados na doutrina religiosa, levantavam desconfiança em seus corações. Só que a grande maioria mal conseguia acompanhar o que estava sendo discursado. Mas assim mesmo o pastor Estêvão prosseguiu:

- “Um dia, veio ao mundo um homem chamado Jesus da descendência do rei Davi e do patriarca Abraão, como muitos outros judeus na sua época. Ele começou sua atividade ministerial andando entre os pobres e pregava sobre o Reino de Deus e a prática do amor. Em volta dele, juntaram-se pessoas de todos os tipos: ladrões, prostitutas, coletores de impostos, leprosos e toda a ralé do Galil. E creio que até muitos homossexuais deveriam segui-lo também, apesar deste detalhe não ter ficado registrado nos evangelhos oficiais e nem nos apócrifos. Porém, o que importava era que Jesus não condenava a ninguém pelo seu modo de ser ou falhas de caráter. Ele aceitava o outro incondicionalmente! Certa vez absolveu uma mulher adúltera que iria ser apedrejada dizendo aos seus acusadores que atirasse a primeira pedra quem nunca pecou. Em outro episódio, quando seus discípulos foram acusados por alguns religiosos de profanarem o sábado, Jesus lembrou aqueles fariseus provincianos do que Davi fizera na vez em que seu bando precisava urgentemente de comida, pelo que fora ao sacerdote Abiatar pedir que fossem dados os pães exclusivos do santuário para a satisfação de uma necessidade vital. E isto Jesus disse-lhes para mostrar que o direito à vida está acima de qualquer lei porque antes de tudo é preciso cuidar da sobrevivência e do bem estar do seu próximo.”

Neste momento, em que membros do conselho eclesiástico estavam prontos para contra-argumentarem e pedirem uma parte na palavra, o pastor Estêvão, ao perceber que novamente iria encarar uma discussão teológica inútil, resolveu propositalmente radicalizar o seu discurso:

- “Agora ouçam, ó homens egolátricos, insensíveis para ouvir e meditar nas coisas espirituais, vocês sempre resistem ao vento evolutivo da história. Assim como aqueles fariseus medíocres e invejosos do interior da Galileia teriam perseguido a Jesus, vocês fazem a mesma coisa. Pois como vou negar a um homossexual nascido nesta condição o direito de ter um relacionamento afetivo com alguém com quem possa se relacionar intimamente? Que poder tem uma meia dúzia de versículos de uma Bíblia escrita por homens para impedir duas pessoas do mesmo sexo de serem felizes da única maneira que elas conseguem ser? Mas se os evangelhos contam que os religiosos da época de Jesus teriam tramado suas ciladas contra ele, vocês que se consideram detentores das tradições cristãs e pensam serem donos de Deus estão praticando o mesmo pecado. Vocês cujos ancestrais espirituais receberam as boas novas pelo testemunho apostólico e não guardaram a sua essência!”

Quando ouviram isto, os conselheiros da igreja ficaram furiosos, taparam os ouvidos e começaram a ranger os dentes contra o pastor Estêvão, clamando:

- “Herege! Herege!”

Já outros chamavam-no de “ateu”, “pecador”, “pederasta” e até de “pedófilo”. Porém, mesmo em meio aos gritos furiosos e irracionais das pessoas presentes, eis que, naquele momento, o pastor Estêvão ainda conseguiu dizer suas últimas palavras usando o microfone da igreja:

- “Quando olho para o céu, sinto como se Jesus, sentado do lado do Pai, estivesse de pé encorajando-me a continuar levando estas boas-novas da inclusão e ministrando a Santa Ceia aos nossos irmãos gays e lésbicas.”

Com a aprovação do bispo, um jovem chamado Saulo, estudante do seminário teológico e que tinha um blogue sobre apologética cristã na internet, resolveu intervir, desligando primeiramente o microfone que estava nas mãos do pastor Estêvão.

Virgem, reprimido sexualmente, sem nunca ter namorado e se considerando zeloso das tradições dos evangélicos, o rapaz fazia de tudo para agradar o bispo que também era o reitor da faculdade. Ambicionava algum dia ocupar o lugar de Estêvão de depois de Ananias, após se formar.

Sem nenhum respeito pelo pastor e professor, Saulo chegou por detrás do seu mestre, agarrou-o com violência e o colocou à força pra fora do templo:

- “Seu blasfemo e enganador! Fora da casa de Deus! É por causa de falsos irmãos como você que o nome de Cristo é ridicularizado entre os ímpios. Saia daqui!”

Seguindo Saulo, muios conselheiros ali presentes continuaram clamando contra o pastor Estêvão. Uns tentaram até exorcisá-lo. E, quando chegaram na porta da igreja, ele foi empurrado escada abaixo. Porém, ainda disse:

- "Senhor, perdoa-os porque esses homens não compreendem o que estão fazendo."

Ainda naquele dia, Saulo liderou uma manifestação de evangélicos e católicos fundamentalistas pelas ruas da cidade afim de protestarem contra o homossexualismo e o casamento gay. E, no meio dos religiosos, estavam também uns neonazistas e muitos machistas homofóbicos infiltrados.

Quanto ao pastor Estêvão ele foi tratado como se estivesse morto pela comunidade eclesiástica local. Os evangélicos moradores da cidade passaram a não mais convidá-lo para entrar nas suas casas.
Nenhum outro pastor permitiu mais que Estêvão pregasse em púlpito e houve até gente que deixou de cumprimentá-lo na rua virando a cara, além de que a faculdade teológica dispensou-o de suas funções. Contudo, alguns homens e mulheres verdadeiramente piedosos aproximaram-se de sua pessoa e juntos lamentaram por causa da ignorância do povo.

Rodrigo Ancora da Luz

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

AS FOGUEIRAS DO REINO





O melhor e mais importante de nossa história resulta dos planos que não deram certo. E esta é a descoberta que nos atordoa e redime.

Em um mundo de liberdades, o incerto e o imprevisível criam o espaço mais doloroso, e mais rico. Naquilo em que nos tornamos, somos desenhados, com uma freqüência surpreendente, pelas linhas oblíquas de nossos projetos frustrados.

Ele desfila expectativas, propósito e determinação nos caminhos que inauguram seu Reino. É possível ver em seus olhos o foco intransigente de quem acredita com força e urgência em sua utopia. E para toda utopia há uma estratégia tão rigorosa quanto crédula. O Reino virá agora, eis sua paixão. Israel, reinventado, inaugurará a política que salvará o mundo e a Torá, reinterpretada, encantará as nações da Terra. Para uma nova  política, um novo rei. Para uma nova religião, uma nova pedagogia.
A fé encontrará novos sentidos, frutos de uma leitura imaginativa e de uma pedagogia que dialogará com o mundo concreto. As parábolas recontarão a história da humanidade.

O tempo é fermentado pelos que tem fome e sede de justiça. Os que choram inspiram uma nova pregação. Os pobres enfileiram os que tomarão com a força de sua necessidade o destino dos povos. Os mansos darão o ritmo dos que sobreviverão para herdar a Terra. Eis o novo Reino e sua bem-aventurança!

Só esta ingênua determinação explica o deslize deselegante com aquela desgraçada. Desesperada, mas sirofenícia. E este era seu defeito. Persegue Jesus e os discípulos aos gritos. Fresca na memória a advertência de que sua missão era com os filhos de Israel, aqueles pedidos incomodam mais do que deveriam. Mas a mulher teima como insistente é sua tragédia. Tem uma filha possuída pelas forças do mal. Seu grito é finalmente silenciado por uma truculenta, mas previsível resposta. O pão da mesa é dos filhos e não dos cachorrinhos.

Os que não carregam a oportunidade estratégica da etnia terão sua vez, mas não agora. Ele acredita que um novo mundo virá depois de uma nova etnia. Mas a réplica de uma mãe histérica é a fissura inevitável na lógica encantada pelo grande plano. Os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa. Logo se descobrirá que aquela piedosa mesa, tão fartamente servida, jamais saciará. O sentido da revolução pretendida por Jesus não será o do farto pão à mesa, mas o das involuntárias migalhas. Do chão dos esquecidos. Dos que carecem. Dos que estão à margem. Só eles poderão entender o evangelho. As migalhas no chão saciarão mais que o pão na mesa.

Aquele instante é ainda a réstia da grande luz, que iluminará pela dor da decepção um novo horizonte para seus empenhos.

Não foi preciso muito tempo para ver seus planos esbarrarem nas estruturas adoecidas da política e da religião e descobrir seu projeto como remendo novo em pano velho, vinho novo em odres velhos. Assistir àquele a quem mais se admira com a cabeça presenteada em uma bandeja de prata expôs a desproporcional força e patética dos que amam o poder. Os espaços do mando sempre guilhotinam os que não vestem suas máscaras.

Ser amado pelo pão que multiplica em detrimento da injustiça que subtrai custou o desencontro insuperável com as multidões. Convergir adeptos é sempre distorcer sentidos.
Assistir aos seus gestos de misericórdia agredirem os escrúpulos dos que frequentam o templo mostrou-lhe as vendas religiosas que cegam a fé. Sempre que um dogma precisa ser salvo, um aflito acaba esquecido.

Estes foram os dias da grande decepção. Aqueles que jamais terminaram de tão definitivos para o evangelho de Jesus. A eles deve ter se referido João quando retratou a história do Filho de Deus. Veio para os seus, mas os seus não o receberam. E a todos os que o receberam deu-lhes o direito de serem chamados filhos de Deus. Desde os dias funestos, não se viu mais Jesus nos mesmos lugares. A casa do pecador tornou-se seu espaço de comunhão. Todos foram para o templo, mas ele foi visto em um lugar estranho, nos pavilhões indesejados do Tanque Betesda. Ao escapar das multidões e seus desencontros, a casa de um maldito, o publicano Zaqueu, tornou-se a sua. Sua fama agora é de quem gosta das festas, com suas comidas, bebidas e gente despretensiosa e livre.

Na cruz morre um homem porque não quis ser o que seu mundo lhe impôs. Mas também, e na mesma cruz, morre o homem que Jesus nunca foi. Termina na cruz, porque é assim que se faz com os que destoam. Termina na cruz a imagem colada pelos seguidores em seu líder. Talvez apenas este paradoxo explique o estranho fenômeno de desconhecimento que acompanhou os dias do Cristo ressurreto entre os mais íntimos.

Maria o confundiu com um jardineiro atrevido, provável responsável pelo sumiço do corpo do Mestre amado. Os discípulos de Emaús o confundiram com um judeu mal informado sobre os acontecimentos de Jerusalém. Os discípulos o tomaram por uma ameaça ao refúgio para os perigosos dias que seguiram sua morte. Os que mais o conheceram não conseguiram reconhecê-lo. Não será porque o Cristo glorioso, aquele do grande plano, fora desconstruído rumo à morte na cruz? E este, que agora vêem, não será aquele que não conseguiram, mas deveriam, enxergar o tempo todo?

Naquele dia o mar não estava para peixes. Nada muito novo na árdua tarefa dos que pescam. Ele caminha na praia como quem espera ansioso pela volta dos que deveriam trazer os peixes. Aflito, sem poder esperar mais, vê os pescadores voltarem aos poucos com os barcos vazios. De longe ainda, pede peixe. Ninguém o reconhece. Antes que desistam totalmente da pesca, ele fala como quem sabe e aponta aonde entende que os peixes estão.

Pescadores desapercebidos lançam as redes e, finalmente, o reconhecem. Quem sabe depois de Pedro se lembrar de outra pesca prodigiosa orientada pelo Rabi? É Jesus? Mas é outro. Mas é Jesus. Pula do barco e, às braçadas, desliza saudoso em direção ao não mais tão estranho assim. Na areia, as brasas já assam alguns peixes e pães. O cheiro doce da comida dissolve apreensões. Um a um, todos chegam, sentam-se e comem. A comida espalha endorfina e relaxa o corpo outrora teso e o calor da fogueira espanta o frio doído da brisa que já sopra no fim do dia. Logo a adrenalina daqueles dias dá lugar ao prazer, as palavras antes engasgadas, ficam fluidas e os sorrisos, tão raros ultimamente, retornam fáceis.



Encantado observo, mesmo que inseguro. A cena é constrangedora, mas também é a indicação de um livramento. O Reino do Cristo está ali, aquecido por aquela fogueira, feito de uma gente despida de qualquer imponência ou virtuosismo. Pondero abismado enquanto passo os olhos no grupo. O líder, alguém que acabou de passar por uma terrível humilhação pública. A multidão desistiu dele e de seu fosco projeto de Reino. Pedro, não conseguiu ser leal na hora mais aflita do anunciado, mas desprestigiado amigo. Os Filhos de Zebedeu, João e Tiago, brigaram por espaço e pompa até há pouco. Nós, os demais, dispersamos confusos e amedrontados no momento mais tenso da trajetória. E há um terrível vácuo, uma ausência amarga, um companheiro, antes tão presente, não está mais ali. Ele preferiu desistir da vida a encarar sua fraqueza. Amigos precários, mas amigos. Reunidos pelo breve e fugidio tempo de uma brasa. Sagrando os afetos com comida e conversa. Este é o Reino. Este é o evangelho que contagiará inalcançáveis almas.

Barriga cheia. Conversas fartas de memórias. Cristo chama por Pedro. O nome destacado na roda poderia indicar um grave e adiado acerto de contas. Ainda pairam dúvidas. Ao contrário do que poderia se imaginar, Jesus não pede explicações pelos tropeços, nem suscita grandes promessas para novas e também grandes expectativas. Não oportuniza um pedido formal de perdão. Ah! Nossos ritos de perdão! Fragmentos do grande plano. Pedimos perdão como quem pode retomar a fantasia de não mais frustrar. Perdoamos e iludimos novamente nosso coração com a panacéia de amigos que não decepcionam. Mas nada disso acontece ali. A pergunta é tão singela e quente e saborosa quanto à comilança em torno da fogueira. A brasa crepita e pausa os assuntos. Pedro, você me ama? A resposta é tímida, mas fluente. Você sabe que te amo! Pergunta e resposta se repetem como em um diálogo dramático. Num só lance e roubando o fôlego. E aos três movimentos modestos e teatrais de amor, um pedido despretensioso se segue: cuida das minhas ovelhas. E todos respiram aliviados.

Desde então, sempre que homens e mulheres se reúnem para comer e beber e conversar esquecem-se das grandes utopias e suas perversas expectativas, tornam-se mais amigos e amantes, cuidam-se como pastores de suas ovelhas e Jesus volta e seu Reino e seu Deus.

Colunista no blog Mundo Da Anja(link)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

FÉ, LEI E REI



Gostava da época da inocência, aquela em que não éramos obrigados à fé, nem à lei, nem ao rei! Coisas de índios, diriam alguns, afinal, gente civilizada tem fé, lei e rei... E, de fato, essa foi uma sentença da coroa portuguesa, nossos colonizadores civilizados, contra os nativos que não se deixavam dominar...

Aliás, é por se acreditar em tantas coisas, que uma série de outras são instituídas em regras e, geralmente, com um, em que também, acredita-se ser destaque, superior em hierarquia. Acredita-se, acredita-se, acredita-se... Contudo, na inocência era a amizade que prevalecia! Amizade: palavra, sentimento, atitude; que, enquanto mais fé, lei e rei, mais é esquecida. E como poderia ser diferente, se essa lição vem da própria fé?

Amizade pressupõe confiança, é um sentimento de lealdade e de afeição, mas a fé nos diz que é maldito o homem que confia no homem! A fé, a lei e o rei não reconhecem alteridade, sobrevivem de imposições, cogentes; sem rosto, abstrato e sobreano beiram ao fantástico, ao fanático, e tudo que é nominado, por eles, jamais o será de amigo, porque, primeiro, quis-se a posse, a sujeição.

Quem tem fé na amizade, não tem um amigo, afinal, fé é certeza de algo que se espera e confiança em algo que não se vê, mas quem tem um amigo não espera nada e sempre confia no que se é, no que se vê! Há pessoas que dizem que ter amizade com fulano ou sicrano é de lei... Então, fulano e sicrano não são amigos, pois a lei é erga omnes (atinge, obriga a todos), mas o amigo, não atinge, nem obriga, é inter partes e ergue o homem, na sua dignidade e afeição, sem obrigá-lo a nada e nem sujeitá-lo. Já vi pessoas que tratam ao outro  de “meu rei”, pude concluir que não são amigos... Afinal, um amigo não é um nobre, um sobreano, que exige devoção, submissão e reverência, mas o amigo é uma extensão do amor próprio que primeiro cultivamos em nós mesmos, e ofertamos ao outro que elegemos em nosso afeto e lealdade, sendo tal sentimento mútuo.

Tenho saudades da inocência, quando não sabia nada de fé, de lei ou de rei, mas apenas me regalava com a presença de meus amigos... Época em que ser cúmplice era o suficiente para sermos felizes, em que um sorriso sincero, presente e satisfatório valiam mais que mil palavras... Época que mil palavras, que saiam da boca do amigo, traziam completude e alegria... Sem esperança de nada, pois nada escolhíamos esperar; sem regra de nada, pois a única real atitude estava baseada no respeito; sem se sujeitar a nada, pois tudo o que é significativo cria seu próprio espaço sem se valer da força ou da imposição.

Quanto à fé, à lei e do rei, a mim, já não me dizem nada...

domingo, 12 de fevereiro de 2012

FOI ENTÃO QUE MARIA CHOROU...



By Daneiele F. Pusceddu



Maria, uma menina que nasceu pobre, sem muitas condições financeiras; condições essas que via em suas amiguinhas, por estudar, de favor, através de uma bolsa concedida por intercessão de uma assistente social às freiras de um colégio católico destinado à classe média.

Maria com seus cabelos longos, lisos, mas mal-tratados, ofuscados, sem brilho, o mesmo não brilho do seu olhar gélido sobre a escola fria, de valores frios, de homens frios e de mulheres, igualmente, frias, que viam nela mais um bichinho de estimação a que uma pessoa humana... Nada que se é dito conceitualmente, claro, mas que permeia silenciosamente o inconsciente dos ditos “homens de bens”, e que ainda conseguem se gloriarem por ser tão caridosos e cheios de amor!

Maria de pele parda e voz rouca, logo descobriria que as pessoas, podem e, invariavelmente, são cruéis, na tenra idade, na formação de seus nobres valores, em um colégio de pessoas ditas nobres... Em uma aula, não tinha caneta para suas anotações, e pediu emprestada a uma colega, o que não houve recusa, mas, de pronto, foi acusada de roubar os objetos pessoais da mesma, o que sem entender e ofendida, não argumentou nada em seu favor, preferiu o silêncio, ainda sem saber que ele é um Direito Constitucional! E a chorar na direção, quase perdendo sua bolsa de estudos, houve a absolvição. O padre diretor da instituição não havia acreditado no feito, contudo, preferiu conversar com a menina Maria, com a ingênua Maria...

O conselho do padre foi cruel, mas garantiria a sobrevivência da pobre menina: “você a partir de hoje só usará o que é seu, se você não tem caneta, não peça emprestado a ninguém, escreva com lápis, ou simplesmente não escreva... O que é seu é seu, o que dos outros, dos outros, e isso nos evitará problemas!”. Sim, Maria entendera o recado, muito além do que se possa imaginar, afinal, aquela pobre criança tímida compreendia que na sua vida tudo deveria ser com muito esforço e trabalho, nada seria tão fácil, e que as pessoas emprestam alguma coisa para as outras se nisso houver algum interesse comum, interesse que eles não tinham nela, salvo, pelo desejo incontrolável de terem-na como o objeto de escárnio.

Sim, Maria cresceu, de menina a uma linda moça pobre,  não tão ingênua quanto antes, iria descobrir  outra imperiosa lição, talvez duas! Com a puberdade, sim, às primeiras paixões e com elas as grandes decepções... Por Ronaldo se enamorou, e como todo adolescente amante, sonhou... Sim Maria sonhou muito, mas numa conversa que ouviu do pai do rapaz com seu filho, logo seu pranto foi verdadeiro. Um conceito estranho, entretanto soube que rico casa com rico e que os pobres, como Maria, só servem para se prostituírem, portanto ela deveria ser objeto de prazer para Ronaldo, mas nunca esposa, pois ele deveria se casar com uma mulher branca e de posses, de família nobre...

Com aquele velho olhar gélido, ao horizonte, entendia que a culpa sempre é das putas, e que essas são as que transam por pouco dinheiro, afinal, “mulher honesta” se casa por muito dinheiro... E que não importava o que fizesse, na sua condição financeira, ser puta sempre seria a grande possibilidade da maioria, ainda que não transasse, afinal, não sabia o porquê disso, apenas, sabia que era assim.

Maria não desistiu, formou-se no colégio, foi para faculdade, graduou-se em Direito, foi advogada e logo juíza... Maria não era mais pobre, nem bonita, afinal, estava linda, embora seu olhar gélido ainda pairasse sobre as pessoas e no horizonte... Maria não se casou, e nem queria...  Afinal, havia aprendido muito em sua infância e adolescência sobre a natureza humana da classe média! Maria se tornou rígida, e seguia o velho conselho do padre do que é seu é seu, dos outros, dos outros... Jamais pedia emprestado, ou conversava à toa, excelente profissional, extremamente competitiva, não se importava em ser simpática, apenas desejava ser admirada por sua competência, e isso, de fato, era!

Próximo à páscoa, Maria subia à rua de sua casa, quando de subido, estacionou seu carro e, com um olhar diferente do gélido, agora flamejante, intenso passou a observar duas crianças sentadas na calçada, duas crianças pobres, com uma marmita, e apenas uma colher, em que uma enchia a colher de comida, comia, e passava a outra, que o mesmo fazia, e assim se revezavam na única marmita com uma única colher! Maria desceu de seu carro importado, foi até o bar da esquina e comprou 3 litros de coca-cola e dois copos descartáveis, e deu aos meninos, que com olhar terno e um belo sorriso agradeceram a gentileza...

Maria entrou no carro e continuou a observar, os meninos encherem um copo de coca-cola e ignoraram o outro, e um dava uma golada e passava ao outro que o mesmo fazia... Com os olhos marejados, e um nó na garganta, Maria olhou profundamente para os dois, intensamente, foi então que Maria chorou..

Licença Creative Commons
FOI ENTÃO QUE MARIA CHOROU.. de Daneiele F. Pusceddu é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
Based on a work at omundodaanja.blogspot.com..

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Satã Roga Pelos Homens (By Brabo)




Entregue a Paulo Brabo e, gentilmente compartilhado,


Depois de tentar Jesus de todas as formas que conhecia, Satã deu-lhe as costas e começou a se afastar, considerando que valia à pena deixá-lo sozinho no deserto ponderando tudo de que havia aberto mão.
A poucos passos de distância ele parou de repente, como se uma absurda noção lhe houvesse ocorrido. Ainda de costas, o tentador virou apenas o rosto, para que Jesus pudesse ouvi-lo.

– Só mais uma coisa – ele disse. – Um conselho de amigo.

Jesus não respondeu. Sem se deixar abater, o tentador virou inteiramente o corpo, olhando Jesus de frente.

– Quero lhe recomendar uma coisa. Encare como tentação, se quiser, mas dentre todas essa deveria lhe 
interessar. Minha recomendação… Não: meu pedido é – e ele falava com simpatia sincera – não destrua a religião dessa gente.

Jesus ergueu para o outro dois olhos furiosos, mas permaneceu imóvel e em silêncio.

– Sei que já fiz muita coisa errada – o tentador deu de ombros, como que se confessando – mas convenhamos, hoje em dia a maldade anda no piloto automático: quase nunca preciso intervir diretamente. E, para falar a verdade, acabei me afeiçoando a essa gente. Caramba, eles são um bando de perdidos. Não há como não ter pena deles.

Satã olhou para conferir a reação de Jesus. Nenhuma.

– O que estou querendo dizer é o seguinte – ele levou a mão ao queixo e olhou para baixo, como se quisesse escolher bem as palavras.

Ele ergueu finalmente o rosto. Era um rosto bonito.

– Quero que essa seja uma briga justa, pra mim, pra você e até pra eles – ele fez um gesto vago indicando o resto do mundo. – E se você destruir a religião desse povo isso vai me dar uma vantagem que não quero de jeito nenhum.

Ele deu um passo na direção de Jesus.

– Então, se é isso que você tem em mente, peço que pense duas vezes. Esse é um povo sofrido, meu querido. Essa gente não tem nada. A religião é a última coisa, a única coisa a que essa gente pode de fato se apegar. Todo o resto eu tiro deles ou eles tiram uns dos outros. Eles se vendem, se compram, se destróem, mas a religião fica. Dá ordem à vida deles. Rédeas. E não se iluda – o Diabo ergueu um dedo enfático. – Não pense que eles vão se lembrar de Deus se você abolir a religião deles. Nenhuma chance. Eu minto muito bem mas não estou mentindo agora.

Ele deu mais um passo adiante, mais confiante agora.

– Eu sei como você é. Deve estar se preparando agora mesmo para sair denunciando as barbaridades dos que falam em nome Dele. Está certo, eu e você sabemos que não são poucas. Você deve estar sonhando que vai libertar os cativos, que vai dar genuíno cumprimento completo à Lei. Mas se é esse o seu plano, saiba que é o contrário é que vai acontecer. Nada escraviza mais do que a liberdade. Nada é mais incerto, e as pessoas precisam de segurança, a segurança que só a religião, especialmente a sua, pode dar. O mundo vai cair em confusão se você tirar o chão de debaixo deles. Não confunda essa gente. Faça essa cortesia: não por mim, mas por eles. Faça o que quiser, mas não tire a religião dos homens.

Satã deu um longo suspiro antes de concluir, com a seriedade da absoluta convicção:

– Ninguém quer a liberdade que você quer dar. Isso ninguém pode mudar. Nem você.

Jesus, que havia dispensado as tentações anteriores com um único verso da Escritura, sabia que esta exigiria muito mais. O pacote completo.

– No princípio… – ele começou.

E o Diabo o deixou, porque não era mais necessário.
 

domingo, 11 de dezembro de 2011

Direita Versus Esquerda


 



A esquerda acha que o homem é bom, mas vai mal – e tende a piorar. A direita acredita que o homem é mau, mas vai bem – e tende a melhorar. A esquerda acusa a direita de fazer as coisas sem refletir. A direita acusa a esquerda de discutir, discutir, marcar para discutir mais amanhã, ou discutir se vai discutir mais amanhã e não fazer nada. (Piada de direita: camelo é um cavalo criado por um comitê). Temos trânsito na cidade. O que faz a direita? Chama engenheiros e constrói mais pontes. Resolve agora? Sim, diz a direita. Mas só piora o problema, depois, diz a esquerda. A direita não está preocupada com o depois: depois é de esquerda, agora é de direita.

Temos trânsito na cidade. O que faz a esquerda? Chama urbanistas para repensar a relação do transporte com a cidade. Quer dizer então que a Marginal vai continuar parada ano que vem?, cutuca a direita. Sim, diz a esquerda, mas outra cidade é possível mais pra frente. A direita ri. “Outra” é de esquerda. “Isso” é de direita. 

Direita e esquerda são uma maneira de encarar a vida e, portanto, a morte. Diante do envelhecimento, os dois lados se dividem exatamente como no urbanismo. Faça plásticas (pontes), diz a direita. Faça análise, (discuta o problema de fundo) diz a esquerda. (“filosofar é aprender a morrer”, Cícero). Você tem que se sentir bem com o corpo que tem, diz a esquerda. Sim, é exatamente por isso que eu faço plásticas, rebate a direita. Neurótica! – grita a esquerda. Ressentida! – grita a direita. A direita vai à academia, porque é pragmática e quer a bunda dura. A esquerda vai à yoga, porque o processo é tão ou mais importante que o resultado. (Processo é de esquerda, resultado, de direita). Um estudo de direita talvez prove que as pessoas de direita, preocupadas com a bunda, fazem mais exercícios físicos do que as de esquerda e, por isso, acabam sendo mais saudáveis, o que é quase como uma aplicação esportiva do muito citado mote de Mendeville, de que os vícios privados geram benefícios públicos — se encararmos vício privado como o enrijecimento da bunda (bunda é de direita) e benefício público como a melhora de todo o sistema cardio-vascular. (Sistema cardio-vascular é de esquerda). 

Um estudo de esquerda talvez prove que o povo de esquerda, mais preocupado com o processo do que com os resultados, acaba com a bunda mais dura, pois o processo holístico da yoga (processo, holístico e yoga são de extrema esquerda) acaba beneficiando os glúteos mais do que a musculação. Dieta da proteína: direita. Dieta por pontos: esquerda. Operação de estômago: fascismo. Macrobiótica: stalinismo. Vegetarianismo: loucura. (Foucault escreveria alguma coisa bem interessante sobre os Vigilantes do Peso). Evidente que, dependendo da época, as coisas mudam de lugar. Maio de 68: professores universitários eram de direita e mídia de esquerda. (“O mundo só será um lugar justo quando o último sociólogo for enforcado com as tripas do último padre”, escreveram num muro de Paris). Hoje a universidade é de esquerda e a mídia, de direita. As coisas também mudam, dependendo da perspectiva: ao lado de um suco de laranja, Guaraná é de direita. Ao lado de uma Coca-Cola, Guaraná é de esquerda. Da mesma forma, ao lado de um suco de graviola, pitanga ou umbu (extrema-esquerda), o de laranja vira um generalzinho. (Anauê juice fruit: 100% integralista). 

Leão, urso, lobo: direita. Pinguim, grilo, avestruz: esquerda. Formiga: fascismo. Abelha: stalinismo. Cachorro: social democrata. Gato: anarquista. Rosa: direita. Maria sem-vergonha: esquerda. Grama: nacional socialismo. Piscina: direita. Cachoeira: esquerda. (Quanto ao mar, tenho minhas dúvidas, embora seja claro que o Atlântico e o Pacífico estejam, politicamente, dos lados opostos aos que se encontram no mapa). Lápis: esquerda. Caneta: direita. Axilas, cotovelo, calcanhar: esquerda. Bíceps, abdomem, panturrilha: direita. Nariz: esquerda. Olhos: direita. (Olfato é sensação, animal, memória. Visão é objetividade, praticidade, razão). Liquidificador é de direita. (Maquiavel: dividir para dominar). Batedeira é de esquerda. (Gilberto Freyre: o apogeu da mistura, do contato, quase que a massagem dos ingredientes). Mixer é um caudilho de direita. Espremedor de alho é um caudilho de esquerda. Colher de pau, esquerda. Teflon, direita. Mostarda é de esquerda, catchupe é de direita – e pela maionese nenhum dos lados quer se responsabilizar. Mal passado é de esquerda, bem passado é de direita. Contra-filé é de esquerda, filé mignon é de direita. Peito é de direita, coxa é de esquerda. Arroz é de direita, feijão é de esquerda. Tupperware, extrema direita. Cumbuca, extrema esquerda. Congelar é de direita, salgar é de esquerda. No churrasco, sal grosso é de esquerda, sal moura é de direita e jogar cerveja na picanha é crime inafiançável. 

Graal é de direita, Fazendinha é de esquerda. Cheetos é de direita, Baconzeetos é de esquerda e Doritos é tucano. Ploc e Ping-Pong são de esquerda, Bubaloo é de direita. No sexo: broxada é de esquerda. Ejaculação precoce é de direita. Cunilingus: esquerda. Fellatio: direita. A mulher de quatro: direita. Mulher por cima: esquerda. Homem é de direita, mulher é de esquerda. (mas talvez essa seja a visão de uma mulher – de esquerda). Vogais são de esquerda, consoantes, de direita. Se A, E e O estiverem tomando uma cerveja e X, K e Y chegarem no bar, pode até sair briga. Apóstrofe ésse anda sempre com Friedman, Fukuyama e Freakonomics embaixo do braço. (O trema e a crase acham todo esse debate uma pobreza e são a favor do restabelecimento da monarquia). 

“Eu gostava mais no começo” é de esquerda. “Não vejo a hora de sair o próximo” é de direita. 

Dia é de direita, noite é de esquerda. Sol é de direita, lua é de esquerda. Planície é de direita, montanha é de esquerda. Terra é de direita, água é de esquerda. Círculo é de esquerda, quadrado é de direita. “É genético” é de direita. “É comportamental” é de esquerda. Aproveita é de esquerda. Joga fora e compra outro, de direita. Onda é de direita, partícula é de esquerda. Molécula é de esquerda, átomo é de direita. Elétron é de esquerda, próton é de direita e a assessoria do neutron informou que ele prefere ausentar-se da discussão. 

To be continued (para os de direita)  Under construction (para os de esquerda) 
Autor: Antonio Prata é escritor. Nasceu em São Paulo em 1977. Publicou alguns livros de contos e crônicas, entre eles “Meio Intelectual, Meio de Esquerda” (Ed. 34), e escreve no caderno Cotidiano da Folha às quartas-feiras via

Via Conexão da Graça

http://omundodaanja.blogspot.com/2011/10/direita-versus-esquerda.html

domingo, 4 de setembro de 2011

É do Diabo!!!


É do Diabo!!!

Se você não entende algo ou simplesmente não tem argumento, use esse chavão: “É do Diabo!” É mais fácil assim. Jogue fora tudo o que ouviu falar sobre amor, perdão, sobre não julgar o próximo. Porque, sendo você uma pessoa religiosa, automaticamente se torna superior. Você possui A verdade, não é mesmo?

Não precisa entender as coisas, é só espiritualizar tudo. Em tempos de eleição, isso fica bem claro. “Não pertencemos a esse mundo, fazemos parte do Reino do Céu”. Sejamos apolíticos, então! Ninguém presta mesmo! “Aquele candidato? É um ateu! Se for eleito, vai fechar todas igrejas!” “Aquela mulher? É uma liberal! Se for eleita, teremos que engolir casais homossexuais!” Nesses tempos, não há uma preocupação com um dos principais objetivos do cristianismo: a justiça social. Não é preciso saber o histórico da/do candidata/o em quem votar; não há necessidade de conhecer suas bandeiras, propostas e se há, no mínimo, uma busca por igualdade social; basta que seja “um servo do Senhor”. Pode não entender nada de política, ou mesmo pior, pode entender tudo de corrupção, contanto que seja evangélico, já é o suficiente pra ser eleito.

O que dizer do moralismo? Ah, o moralismo. É bom, porque alguém disseque era. Atos socialmente aceitos, que camuflam suas reais intenções ou conseqüências. “É proibido!” Esconda seus podres embaixo do tapete, arrume sua imagem, que está tudo bem. Critique fumantes e maconheiros e se entupa de drogas que são lícitas em sua casa; relaxantes musculares, calmantes, antidepressivos são legalizados, não é? Então, não é errado se automedicar. Quanto à aparência, se vista com trajes finos, que quer dizer que você tem bom caráter. Um terninho combinando com sua gravata, uma bolsa nude, que converse com seu sapato meia pata, são provas da pureza de sua alma. Mas esse negócio de tatuagem, acessórios e roupas pretas, são coisa de bandido, né?! Fale mal do seu irmão, julgue sempre o seu próximo, difame seus colegas, crie fofocas no ambiente de trabalho, o importante, é não faltar no culto de domingo. Assim, você purifica sua alma, e se prepara pra tentar ficar rica/o essa semana, porque é pra isso que você está nessa terra, “pra ser cabeça, e não cauda!”

E o sexo? Esse é o meu favorito! “Não olhe, não toque, não sinta, não cheire, não tenha!” Porque dizem que isso, vai te aproximar mais do Divino. É mais importante disciplinar uma jovem que “se corrompeu” e engravidou, do que estender a mão e ajudá-la. É mais fácil dizer que é proibido, e acreditar que isso foi suficiente, do que sentar pra ouvir e esclarecer as dúvidas pros jovens. É mais importante fingir que não estamos vendo o que está acontecendo, do que nos envolvermos com essa imoralidade em que o mundo caminha. Enquanto isso aumenta o número de infectados com doenças sexualmente transmissíveis; meninas engravidam cada vez mais cedo, e não têm estrutura física, social, financeira e emocional pra cuidar de um filho; adolescentes morrem todos os dias por abortos mal feitos. Mas o nosso papel é simplesmente dizer: “Não transe, adolescente, porque é errado!” (???) Não importa se a sua vida conjugal é um inferno, se você é infeliz, ou até apanha em casa, desde que estejam casados segundo a lei, “o que Deus uniu não separe o homem”. Deus?

Enfim, você é especial, não é mesmo? É um(a) escolhido(a) de Deus! É um(a) convertido(a). Dessa forma, não importam argumentos. Não se preocupe, você não precisa ser inteligente, apenas ter em mente o quão especial é, e que sua missão nesse mundo é trazer a ordem e o progresso, segundo seu pensamento retrógrada e preconceituoso.

Não se esqueça: não gostou de alguma coisa? É só apontar, fazer aquele olhar espiritual e gritar com toda autoridade “É do Diabo!”






Priscila Anjo
http://edodiabo.blogspot.com
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