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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Vanitas, Vanitatis!



Por Matheus De Cesaro

“Onde é que eu não entro? Onde é que eu não mando alguma coisa? Vou do salão do rico ao albergue do pobre, do palácio ao cortiço, da seda fina e roçagante ao algodão escasso e grosseiro.”

Machado de Assis “Elogio a Vaidade”


Ao dissertar  sobre vaidade, talvez a primeira lembrança que nossa mente nos traga, é que , “vaidade é só vaidade”. Assim  já dizia o sábio Rei de Israel ao qual se chamava Salomão e nos conta a história bíblica cristã e a história judaica, que teria sido este homem um dos mais sábios de toda a humanidade. Um homem, rico, inteligente, com poder e supostamente castigado pela sua vaidade. Um homem que definiu em seus textos serem todas as atitudes vaidosas, vãs e fúteis, revelando-se no desejo de aparecer, de brilhar, de atrair a atenção dos outros, uma presunção ridícula e medíocre, um ato de vangloriar-se e ostentar uma posição, apresentar-se de forma grandiosa aproveitando-se do conhecimento, do poder sobre os mais fracos e dos menos favorecidos, enfim, tudo que pudesse o colocar em um nível aparentemente acima do que realmente e de fato fosse, dizia Salomão ser vaidade.

“Vaidade de Vaidades! Diz o Pregador, vaidade de vaidades! É tudo vaidade”, “Avel Avalim! Amar Koelet, avel avalim! Col avel”, “Vanitas, vanitatis! Vanitas, Vanitatis! Et omnia vaitas” (Eclesiastes 1:2)

Quando fala-se em vaidade no sentido de como ela se manifesta no ser humano, alguns se escondem e fogem deste assunto, talvez por temor de terem que enfrentar a si mesmos, e depararem-se com os seus próprios “monstros internos”. Uma realidade que surge por meio do que Freud denominou de “sono do mundo”. Mas, ainda há alguns que buscam incessantemente atrapalhar este sono. Por isso nos dedicamos em lutar por essa compreensão de nós mesmos, seja na leitura, na escrita, no debate, nas divergências e nas concordâncias, enfim, vivemos em uma constante busca pelo entendimento dessa complexidade que forma nossas vidas.

Em contra partida, há outros que não fogem a esta realidade, porém se manifestam trazendo as mais variadas e bem estruturadas interpretações para definir e formar o conceito, parecendo até terem em mãos a fórmula secreta para vencerem esta paixão, mesmo sendo muitas destas dissertações vazias e superficiais se comparadas ao que realmente queremos compreender e investigar. O que hoje se tornou  muito comum, se tratando de qualquer assunto em que nos disponibilizarmos a dissertar. Ninguém mais fica para trás em uma discussão, basta ter acesso a internet, uma teclada ou outra em um computador ou até mesmo em um celular, e “bummm” bem ao estilo “Big Bang”, temos uma explosão de Phd’s em qualquer assunto que esteja em voga, basta o camarada entrar na “wikpédia” e terá condições de elaborar uma opinião convincente e bem estruturada sobre o termo discutido, para exatamente demonstrar sua vaidade no que faz alusão ao ato de conhecer o assunto em questão. E desta forma não passar a vergonha de assumir que de fato não compreende o que esta a dissertar. E segundo este tão “sábio e influente site”, podemos definir a vaidade da seguinte forma: 

“A vaidade (chamada também de orgulho ou soberba) é o desejo de atrair a admiração das outras pessoas. Uma pessoa vaidosa cria uma imagem pessoal para transmitir aos outros, com o objetivo de ser admirada.”

Não que este sentimento e busca de atrair atenção não venha mesmo revelar a vaidade, mas tal revelação é superficial e rasa, sendo que quando conjecturamos e supomos acerca da vaidade, podemos ir mais longe, podemos invadir e destrinchar com mais ênfase nossa própria natureza humana, tendo ciência de que tal paixão compõe nossa natureza. Em resposta ao que a “Wikipédia” define e aponta como vaidade, eu me recordo de um fragmento escrito por C S Lewis que diz,

"O prazer em ser elogiado não é orgulho ou vaidade. A criança a quem se da uma palmadinha nas costas por fazer bem uma lição, a mulher cuja beleza é louvada por quem lhe ama, a alma remida a quem Cristo diz, "procedeste bem", ficam satisfeitas e são desejáveis. Porque, aqui, o prazer assenta não no que somos, mas no fato de termos agradado alguém a quem queríamos precisamente agradar. O problema começa quando deixamos de pensar, "ele gosta de mim, que ótimo", para pensar, "que sujeito formidável eu sou, para ter feito isso". Quanto mais nos deleitamos conosco mesmos, e menos nos deleitamos com o elogio, piores nos estamos tornando... Se alguém deseja adquirir humildade, o primeiro passo é compreender que se é orgulhoso e vaidoso por natureza. Nada mais pode ser feito antes disso. E quando alguém pensa que não é orgulhoso, significa que ele é, na verdade, extremamente orgulhoso e esta impregnado pela vaidade. Não imaginem que se encontrarem um homem realmente humilde ele será o que a maioria das pessoas chamam "humilde", hoje em dia... Provavelmente só pensaremos que ele parece um indivíduo inteligente e bem disposto, e que tem um verdadeiro interesse pelo que nós dizemos a ele... Ele não estará pensando em humildade, ele não estará de modo algum pensando em si próprio!"

Logo, se percebe que a definição “wikpediana”, de fato é muito rasa e superficial, quando nos dispomos a buscar a compreensão desta complexa paixão.

E para expor e enfrentar um pouco de minha eterna companheira vaidade, é que decidi aqui dissertar um pouco sobre ela, hora amiga e companheira, hora vilã e traiçoeira, hora manifestando-se de forma visível, hora se ocultando, se escondendo e se mascarando na forma do bem, ou até mesmo do mal. Como diria Mathias Aires em Reflexões sobre a Vaidade,

“Vivemos com vaidade e com vaidade morremos; arrancando os últimos suspiros, estamos dispondo a nossa pompa fúnebre... No silêncio de uma urna depositam os homens a sua memória para com a fé dos mármores fazerem seus nomes imortais... A vaidade até se estende a enriquecer de adornos o mesmo pobre horror da sepultura... Queremos que cada um de nós se entregue a terra com solenidade, e fausto, outra infeliz porção de terra: tributo inexorável!”

Não há como ignorar que diariamente esta paixão nos acompanhe, em discursos, atos, buscas, representações, enfim, em tudo o que somos sempre há um pitada desta tão assustadora paixão, a qual poderíamos afirmar talvez ser a mais sagaz e ardilosa paixão, não a toa que Mathias Aires ao falar sobre ela, dizia,

“De todas as paixões , a que mais se esconde é a vaidade, e se esconde de tal forma , que a si mesma, oculta, e ignora.”

O que mais me chama a atenção na verdade, não são aqueles que possuem a capacidade de em meio a facilidade digital elaborar conceitos e estruturar sistemas prontos para elucidar tal ato, e sim os que fogem do assunto por medo de se depararem consigo mesmos nas mais simples circunstâncias do cotidiano em que se esta inserido. Pois ao se escrever se esconde o desejo do reconhecimento em ser lido, ao fazer o bem se esconde o desejo de ser conhecido pelos seus atos, até mesmo no medo da morte escondemos o temor de não sermos lembrados e assim não sermos reconhecidos pelas nossas memórias.

Nestas situações é que percebo  a existência de dois grupos distintos, o primeiro composto por aqueles que reconhecem e temem a convivência com a vaidade,  a tratam como a grande inimiga na edificação e no  desenvolvimento de suas estruturas espirituais, materiais e sociais, estando sempre em combate, lutando contra uma paixão que na maioria das vezes é incompreendida e tratada como um mal absoluto, e irreparável, algo em suma, nocivo, prejudicial e que deve ser aniquilado custe o que custar. Estes não percebem que na vaidade também há o bem, e também há virtude na mesma proporção em que há este suposto mal tão temido. Desconsideram o dualismo que repousa sobre a paixão da vaidade “bem e mal”, trazendo sobre a mesma um determinismo negativo, que no fim não passa da mais concreta característica da vaidade, que se mostra exatamente na necessidade de tornar a paixão má em defesa de uma postura boa e livre da vaidade.

No segundo grupo estão aqueles que dizem conhecer a vaidade e não a possuir, aqueles que dizem estar preparados e prontos para viverem em si, a mais sublime forma de humildade, o que ao meu ver, é a mais autêntica forma de vaidade que podemos encontrar, o que popularmente chamamos de falsa modéstia.  A respeito destes Machado de Assis ao finalizar sua obra “Elogio da Vaidade” diz,

“Um levanta os ombros; outro ri de escárnio. Vejo ali um rapaz a fazer-me figas: outro abana tristemente a cabeça; e todas, todas as pálpebras parecem baixar, movidas por um sentimento único. Percebo, percebo! Tendes a volúpia suprema da vaidade, que é a vaidade da modéstia.”

Fica muito claro que falar sobre vaidade exprime uma complexidade sem tamanho, nos aponta caminhos diversos, e conjecturas das mais variadas formas. Eu mesmo a tenho como parte inerente de minha pobre e mortal natureza humana, uma eterna companheira que do berço ao túmulo terei que conviver. Não há como aniquilar a vaidade, sem que eu próprio seja aniquilado, não há como descartar a vaidade como se ela própria fosse um sentimento ou comportamento individual. Estamos a mercê de uma paixão que nos alimenta e nos deixa com fome, que nos coloca em um patamar de destaque e que em um piscar de olhos nos leva a mais angustiante ruína.          

Deveríamos entrar com todas as nossas forças em uma queda de braços deveras inútil?

Ou o conhecimento, e o aprender como conviver, seria a atitude mais plausível?

Seria sensato explorar a vaidade no âmbito das virtudes que nela possam existir,  tendo o cuidado de não expor de forma hostil nossa eterna companheira?

Ou seria ainda, a vaidade simplesmente uma criação da psique humana, para então justificar o medo de assumir nossos próprios pensamentos, e nossas posições contrárias ao proposto?

“Digo a todos, porque a todos cobiço, ou sejais formosos como Páris, ou feios como Tersites, gordos como Pança, magros como Quixote, varões e mulheres, grandes e pequenos, verdes e maduros, todos os que compondes este mundo, e haveis de compor o outro; a todos falo, como a galinha fala aos seus pintinhos, quando os convoca à refeição, a saber, com interesse, com graça, com amor. Porque nenhum, ou raro, poderá afirmar que eu o não tenha alçado ou consolado.” (Machado de Assis, Elogio da Vaidade

Publicado originalmente no blog http://logosemithos.blogspot.com.br/2012/11/vanitas-vanitatis.html

Blog do autor: http://filoboteco.blogspot.com.br/


sábado, 7 de julho de 2012

Anula en mí mi masculinidad, del Irmão Antoninus (versión bilingüe)





Anula em mim minha masculinidade


Anula minha masculinidade, Senhor
E torna-me mulher e frágil,
Se por esta total transformaçao
Eu puder conhecer melhor a Ti.
De que vale o meu próprio sexo
Se o audaz instinto possessivo
Só faria afastar-Te de mim?
Quanta inutilidade habita meus quadris,
Para instigar, instigar o feroz orgulho da vida,
Quando necessário é uma imobilidade silenciosa.
“A alma é feminina para Deus.”

Anula en mí mi masculinidad


Anula mi masculinidad, Señor,
Y tórname mujer y frágil,
Si por esta total transformación
Puedo saber mejor de Ti.
¿De qué vale el mi propio sexo
Si un audaz instinto posesivo
Sólo haría alejarTe de mí?
Cuánta inutilidad habita mis ancas,
Para instigar, instigar el feroz instinto de la vida,
Cuando lo necesario es una inmovilidad silenciosa.
“L’alma es femenina para Dios.”
del Irmão Antoninus 

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Fundamentalismo


Por Donizete

Essa breve reflexão, serve como um convite para melhor entendermos o fenômeno e criar clareza sobre este tema tão polêmico, para podermos nós mesmos superar certas dimensões fundamentalistas embutidas em nossa cultura, quem sabe até em certos comportamentos pessoais.

Na verdade o termo fundamentalismo tornou-se a palavra de acusação em voga. Entretanto fundamentalista é sempre o outro. Quando é aplicado para nós mesmos, geralmente preferimos o emprego de outros termos.

Existem fundamentalismos em todas as áreas, ainda que em muitas delas, preferem o uso do termo “radicalismo”. Ele está presente nas religiões, na política, na economia, e, em tantas outras ideologias. Os fundamentalismos estão aí com grande ferocidade, e representa um risco para a pacífica convivência humana e para o futuro da humanidade.

O fundamentalismo cristão atual, que é o objeto de discussão nesta postagem, tem sua origem no protestantismo norte americano do século XIX. O termo foi cunhado em 1915, quando professores de teologia da universidade de Princeton (numa contra ofensiva ao liberalismo teológico nascente)  publicaram uma coleção de doze volumes com o título: “fundamentalismo. Um testemunho da verdade”.

Neles propunham um cristianismo extremamente rigoroso, ortodoxo, dogmático, como orientação contra a avalanche de modernização de que era tomada a sociedade norte americana.

A tese dos fundamentalistas no âmbito religioso é afirmar que a Bíblia constitui o fundamento básico da fé cristã e deve ser tomada ao pé da letra. O fundamento de tudo para a fé protestante é a Bíblia. Cada palavra, cada sílaba e cada vírgula, dizem os fundamentalistas, é inspirada por Deus. Como Deus não pode errar, então tudo na Bíblia é verdadeiro e sem qualquer erro. Como Deus é imutável, sua palavra e suas sentenças também o são. Valem para sempre.

Em nome deste literalismo, os fiéis opunham-se às interpretações da assim chamada teologia liberal. Esta usava os métodos histórico-críticos e hermenêuticos para interpretar textos escritos há dois, três mil anos.

Nos métodos supracitados, parte-se do princípio de que a história e as palavras não ficaram congeladas no passado. Elas mudam de sentido ou ganham novas ressonâncias com as mudanças dos contextos históricos. Por isso precisam ser interpretadas para que seja resgatado o sentido original.

Este procedimento para os fundamentalistas é ofensivo a Deus, obra de Satanás. A Bíblia, não precisa ser interpretada, ela á a Palavra de Deus, e o Espírito Santo ilumina as pessoas para compreender os textos. Por razões semelhantes se opõem aos avanços contemporâneos da história, das ciências, da geografia e especialmente da biologia que possam questionar a verdade bíblica.

Para o fundamentalista, a criação se realizou mesmo em sete dias. O ser humano foi feito literalmente de barro. Eva é tirada da costela física de Adão. O preceito “crescei e multiplicai-vos, enchei e subjugai a terra, dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre tudo o que vive e se move sobre a terra” deve ser tomado estritamente ao pé da letra, pouco importando-se essa dominação venha por em risco a biosfera. Mais ainda: só Jesus é o caminho, a verdade e a vida, o único e suficiente salvador. Fora dele há somente perdição.

Em face dos demais caminhos, o fundamentalismo é intolerante, na moral é especialmente inflexível, particularmente no que concerne a sexualidade e a família. É contra os homossexuais, o movimento feminista e os demais processos libertários em geral.

O fundamentalismo não é uma doutrina. Mas uma forma de interpretar e viver a doutrina. É assumir a letra das doutrinas e normas sem cuidar de seu espírito e de sua inserção no processo sempre variável da história.

Fundamentalismo representa aquele que confere caráter absoluto ao seu ponto de vista.
Imediatamente surge grave conseqüência: quem se sente portador de uma verdade absoluta não pode tolerar outra verdade, e seu destino é a intolerância. E a intolerância gera o desprezo do outro, e o desprezo, a agressividade, e a agressividade, a guerra contra o erro a ser combatido e exterminado. Irrompem conflitos religiosos com incontáveis vítimas.

Não há ninguém mais guerreiro do que a tradição dos filhos de Abraão: judeus, cristãos e muçulmanos. Cada qual vive da convicção tribalista de ser o povo escolhido e o portador exclusivo da revelação do Deus único e verdadeiro.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

CONTRA A HOMOFOBIA, A LUTA É TODO DIA!


CONTRA A HOMOFOBIA, A LUTA É TODO DIA!


Rev. Márcio Retamero*

          A frase acima é usada no Movimento Homossexual Brasileiro como um jargão ou refrão em nossas ações civis nas ruas, como passeatas, protestos e paradas do orgulho LGBT.
          Hoje, 17 de maio, é o dia mundial de luta contra a homofobia, e este dia “nasceu”, em 17 de maio de 1990, quando a homossexualidade foi retirada do chamado CID (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas relacionados à Saúde). A retirada foi oficialmente declarada em 1992, ou seja, até esta data, a homossexualidade não era considerada orientação sexual, tal qual a homossexualidade, mas uma PATOLOGIA, ou seja, uma doença.

          Vinte e dois anos depois da retirada da homossexualidade como doença do CID, ainda existe pessoas que consideram a homossexualidade como uma doença ou um comportamento adquirido. Ainda hoje, psicólogos e psicólogas brasileiros, principalmente aqueles e aquelas afiliadas às Igrejas Evangélicas de cunho fundamentalista como Marisa Lobo e Rosângela Justino, tratam a homossexualidade como doença, não apenas por usar o termo homossexualismo (sic), mas também por defenderem que a homossexualidade tem cura! Ora, se algo tem cura ou precisa de cura, logo, é uma doença!

          Hoje em dia, infelizmente, as pessoas, na verdade, muitas pessoas, acreditam que a homossexualidade é uma doença ou um comportamento adquirido. Agora pare e pense: se assim fosse este grupo de seres humanos homossexuais deliberadamente, conscientemente “escolheram” ou “aprenderam” a homossexualidade!

          Tais pessoas pensam que um belo dia, um homem ou uma mulher, acordaram, olharam pro espelho e disseram: “cansei de ser heterossexual, a partir de hoje, serei, gay, serei lésbica” – e apertaram um botão imaginário em algum ligar do corpo e – pronto! – viraram homossexuais e por isso essas pessoas acreditam que homossexualidade é uma “opção” e não uma orientação, ou seja, uma condição humana.

          Os que pensam que é uma doença, geralmente acreditam que a homossexualidade é um comportamento adquirido, como as psicólogas citadas acima ou como os pastores e pastoras cristãos (?) fundamentalistas pregam. De novo, pare e pense: nós, homossexuais, nascemos de pais heterossexuais, fomos criados por eles em famílias onde a maioria das pessoas são heterossexuais, crescemos dentro de um cultural cuja norma é a heterossexualidade, numa sociedade onde o que é diferente da norma é, no mínimo xingado de bicha, mariquinha, sapatão ou qualquer outro termo ofensivo.

          Onde, então, aprendemos ser homossexual? Na escola? Na Igreja? Nossos pais nos ensinaram? Nossos avós? Algum pedófilo? A última opção até que poderia, sim, “influenciar”, contudo as estatísticas e os estudos mostram que heterossexuais violados na infância por pedófilos não seguiram a vida sendo homossexuais, que isso nada influenciou em sua orientação sexual, e que trazem a infeliz marca do abuso sexual, do estupro e sofrem com isso, necessitando muitas vezes de terapia e remédios. Tais pessoas quando superam o trauma, casam com pessoas do sexo diferente, constituem famílias e têm filhos e filhas, passando a viver dentro da “norma”, ou seja, da heterossexualidade.

          Vocês acham legítimo um branco dizer como é ser um negro? Ou um homem dizer como é ser mulher ou vice versa? Um ocidental dizer o que é ser um oriental ou vice versa? Não, né? Embora todos sejamos humanos, e isso nos iguala, das nossas particularidades somente nós podemos falar. Não é legítimo, antes, desonesto, um heterossexual declarar o que é, o que pensa, o que sente um homossexual?

          Todavia, heterossexuais gostam de fazer declarações veementes contra a homossexualidade ou nos comparar com doentes como pedófilos, necrófilos, zoófilos e demais parafilias conhecidas pela psiquiatria. Heterossexuais gostam de julgar homossexuais dizendo que isso é doença ou pecado ou comportamento adquirido e que é reversível e que ser homossexual é uma escolha, um opção, sendo assim, passível de ser revertida! Tais pessoas geralmente, nos dias de hoje, são religiosos e religiosas cristãs, ligados à vertente fundamentalista das Igrejas Cristãs, pessoas que leem a Bíblia ao pé da letra, ou melhor, que escolhem alguns textos da Bíblia e dizem que tais textos têm de ser lidos ao pé da letra.

          É muito difícil encontrarmos um heterossexual resolvido com sua sexualidade, até mesmo que professam algum tipo de fé, ainda que cristã, que dizem que homossexualidade é uma doença ou algo que precisa ser curado, pois tais pessoas, leem, são cultas, estudam o assunto e já chegaram à conclusão que ser homossexual não é pecado, nem doença, mas que as pessoas homossexuais têm na área da sexualidade uma orientação diferente da deles e nada além disso. Veem a homossexualidade como uma condição humana, portanto, como algo normal.

          O grande ativista pelos Direitos Humanos e Arcebispo da Igreja Anglicana Desmond Tutu, prêmio Nobel da Paz, declarou: “Nós lutamos contra o apartheid porque estávamos sendo acusados de algo que não podíamos fazer nada sobre. É o mesmo com a homossexualidade. A orientação é dada, não é uma questão de escolha. Seria louco alguém escolher ser gay com a homofobia que temos hoje”.

          Faço minhas as palavras do Arcebispo Anglicano Sul Africano. Seria louco, insano, que uma pessoa, escolhesse ser diferente das demais, marginal, fora da norma! A orientação é dada, não é e nunca foi uma escolha ou comportamento adquirido! Alguém em sã consciência gosta de sofrer bulliyng na escola desde a mais tenra infância? Alguém escolheria algo que colocasse seus próprios pais contra você e alguns deles tomassem a decisão de te cortar da família te expulsando de casa? Alguém, em sã consciência gosta de ser humilhado, mal tratado, xingado, demitido do seu emprego, abandonado por aqueles que consideravam seus melhores amigos por ser gay?

          Infelizmente acontece hoje o que ocorreu no passado! Muitas pessoas usam as Escrituras Sagradas Cristãs, ou seja, a Bíblia, para condenarem os homossexuais. Certamente tais pessoas seriam as mesmas que, no passado, usavam a Bíblia contra as mulheres que eram consideradas bruxas para a queimá-las na fogueira santa da Inquisição. Certamente tais pessoas seriam as mesmas que usavam a Bíblia para afirmarem que negros não tinham almas e que, por isso, poderiam ser escravizados. Certamente são essas pessoas que ainda hoje usam a Bíblia para espalharem a misoginia e a submissão das mulheres aos machos, espalhando, dessa maneira, o machismo, o patriarcalismo. São as mesmas que usaram no passado a Bíblia para condenar judeus à morte e aprovaram o que Hitler fazia na Alemanha na primeira metade do século XX, porque na Bíblia o apóstolo Paulo diz que os judeus mataram Jesus e que, por isso, seja sobre eles o seu sangue.

          Contudo, veja você, hoje em dia não ouvimos ou lemos textos dos fundamentalistas evangélicos dizendo que negros não têm alma, ou que os judeus merecem morrer porque mataram Jesus e muitos já aprovam, inclusive, a ordenação feminina ao ministério pastoral. Hoje as mulheres cantam na Igreja, não usam véu, como ordena o apóstolo Paulo, pregam o Evangelho e são chamadas de pastoras ou bispas, como Sônia Hernandez.

          Agora pare de novo e pense: a Bíblia é a mesma a mais de dois milênios, digo, a Bíblia cristã, pois a Bíblia hebraica fechou seu cânone no VI século antes de Cristo, após o exílio da Babilônia. Dois milênios temos o cânone fechado da Bíblia Cristã! Mudou a Bíblia?! Não! Os textos são os mesmos, embora encontremos alguns textos ideologicamente traduzidos de maneira tendenciosa e exclusiva como a tal da Bíblia NVI.

          Se não mudou a Bíblia e se hoje não encontramos crentes que defendem a escravidão de negros, a submissão das mulheres e a matança de judeus, então, o que mudou?! Mudou a MANEIRA de interpretar os textos bíblicos. Mudou a HERMENÊUTICA desses textos. Mas porque só mudaram a hermenêutica somente destes textos e não dos demais textos que SUPOSTAMENTE condenam a homossexualidade?

          Homofobia é a resposta, pois assim como a Igreja é o pai e a mãe do preconceito religioso que fez jorrar rios de sangue contra mulçumanos e demais adeptos de outra fé, assim como a Igreja é o pai e a mãe do racismo que ainda persiste, ainda que veladamente, pois já temos leis que protegem os negros, assim como a Igreja é a mãe e o pai do machismo que hoje anda mais ameno por conta da Lei Maria da Penha, assim como a Igreja é o pai e a mãe do patriarcalismo que impera nos rincões do Brasil, a Igreja Cristã, que já matou milhões de pessoas e fez correr rios de sangue – e ainda faz porque espalha com suas pregações o discurso injurioso contra gays, lésbicas, bissexuais travestis e transexuais – é a mãe e o pai da homofobia. Usam a Bíblia, que deveria ser um veículo de amor e inclusão, para, como no passado, matar, roubar – e muito! – e destruir vidas de pessoas cujo pecado é ser LGBT!

          Neste dia 17 de maio de 2012, o deputado federal Pastor Marco Feliciano, publicou um contundente texto homofóbico, onde ele afirma que os homossexuais do Brasil desejam e tem um plano de aliciar as crianças para o “homossexualismo” (sic)! Além de insano, tal posicionamento condenatório ajuda e corrobora com a matança de homossexuais, no mesmo dia em que o noticiário nos informa que o Disque 100 do Governo Federal, um serviço para denunciar a homofobia, recebe, por dia, 3,4 denúncias de agressões verbais e corporais contra homossexuais!

          O Brasil é hoje um dos países mais homofóbicos da Terra, e já contamos, no primeiro semestre de 2012, mais de trezentos assassinatos, cujas vítimas eram gays, travestis e lésbicas! Tal resultado vem da equação da pregação evangélica fundamentalista, que suja suas mãos com sangue inocente mais o machismo cultural e patriarcal, cujo pai e mãe também é a Igreja. Seja como for, é a religião que alimenta e fomenta a homofobia em nosso país. Por isso, não conseguiremos atacar a homofobia a fim de erradica-la, se não atacarmos o fundamentalismo religioso e como faremos isso, já eles são tão poderosos, endinheirados, donos de rádio e TV além de revistas e jornais aos montes?!

          É justamente ai que nós temos que atacar: as caixas pretas, os cofres dessas megas igrejas, dessas associações com o nome de Cristo, desses vendilhões do Templo que usam a Bíblia para arrancar dinheiro do povo e também não falta, se atentarmos para os jornais e revistas que desde os fins dos anos noventa vem anunciando, supostas ligações mafiosas, que usam tais igrejas como lavanderia do dinheiro manchado de sangue do narcotráfico.

          Se nós começarmos a entrar ai, no caixa forte, nas caixas pretas, nas contabilidades dessas igrejas e quando seus líderes começarem a observar que não é ameaça, mas algo real, uma ação do Ministério Público e da Polícia Federal, então, eles aprovarão toda a agenda LGBT, porque por dinheiro, vendem até a mãe!

          Só erradicaremos a homofobia da “Terra Brasilis” se bombardearmos os discursos injuriosos, travestidos de liberdade de expressão e os caixas fortes dessas igrejas, do contrário, não venceremos!
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*Márcio Retamero, 38 anos, é teólogo e historiador. Mestre em História Moderna pela UFF/Niterói. É Pastor da Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo e da Igreja da Comunidade Metropolitana Betel do Rio de Janeiro. É escritor de quatro livros publicados pela editora Metanoia. Seu último livro, recém lançado é “Você tem fome de que?”.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Eu, Mulher, Hétero, Brasileira, mãe, crente em Nossa Senhora…






By Maju Giorgi

Resposta de uma mãe as acusações de um pastor

Relembremos alguns fatos:

 “AFRICANOS DESCENDEM DE ANCESTRAL AMALDIÇOADO POR NOÉ. ISSO É FATO.” PASTOR e DEPUTADO FEDERAL MARCO FELICIANO.

“O caso envolvendo o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), que afirmou nessa quarta-feira (30/03/2011), no Twitter, que os “africanos descendem de um ancestral amaldiçoado”, deverá será analisado pela Corregedoria da Câmara dos Deputados. A presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, deputada Manuela d’Avila (PCdoB-RS), disse que irá encaminhar as mensagens do parlamentar para o órgão.” (esta informação esta disponível na internet para todos que queiram ver).

“Sem dúvida, avançamos muito na luta contra o racismo, mas não o extirpamos totalmente. Hoje, pelo menos, sabemos que não se deve discriminar ninguém e é de mau gosto alguém se proclamar racista. Mas nada disso existe no que se refere a gays, lésbicas e transexuais. Quanto a eles, podemos desprezar e maltratar impunemente. Eles são a demonstração mais reveladora de quão distante boa parte do mundo ainda está da verdadeira civilização.” (Mario Vargas Llosa).

As polêmicas ainda atuais envolvem outro pastor, o Malafaia.

Pastor Silas Malafaia, DISCURSO DE ÓDIO NÃO É LIBERDADE DE EXPRESSÃO…É CRIME OU PELO MENOS, DEVERIA SER !

O Pastor quer fazer crer que LGBTs, afrontam o povo negro quando pedem a aprovação do PCL122.

A alegação do Pastor Malafaia é que ser negro não é comportamento, ser gay é. E que querem equiparar o PCL 122 a lei do racismo. Desta forma acho que estamos afrontando a todo ser humano protegido por lei especial. Pastor, caso o senhor não acredite na palavra de milhões de mães e pais heterossexuais, de famílias heterossexuais, presentes, dedicados, livres da promiscuidade que o senhor tanto condena, muitas vezes religiosos praticantes e fervorosos que tiveram filhos gays pelo mundo afora, MAS que não teriam a suficiente credibilidade para o senhor, incontáveis, estudos científicos tem saído todos os dias para provar que homossexualidade NÃO é comportamento, é CONDIÇÃO.

Eu gostaria que o senhor me provasse a sua teoria. Vou fazer uma pergunta: Ser judeu é comportamento ou condição ou a que categoria pertence, para q eu possa entender melhor.

A grande diferença, Pastor, é que ser negro, mulher, pessoa com deficiência, criança ou idoso, É CONDIÇÃO VISTA A OLHO NU, ser gay, não. Mas vamos aos estudos:

Cito alguns recentes:

I- Dr. Jerome Goldstein, diretor do San Francisco Clinical Research Center (EUA) enfatizou que “A orientação sexual NÃO É UMA QUESTÃO DE ESCOLHA, é principalmente questão neurobiológica pré-natal. Existem vínculos inegáveis.” “Nós queremos torná-los visíveis”. Confira aqui
II- “A neurocientista sueca Ivanka Savic, do Instituto Karolinska de Estocolmo e os estudos com gêmeos homossexuais.” Confira Aqui.
III- “O trabalho Anglo-Sueco da Queen Mary University of London.” Leia Aqui.

Então, muito rapidamente e só pra começar, podemos pelo menos colocar uma dúvida nessa sua VERDADE que LGBTS afrontam os negros por quererem uma lei que os proteja. Aliás, me parece que não são os gays que perseguem os seguidores das religiões Afro incansável, sistemática e dedicadamente.

O senhor acha dentro desse seu total entendimento de que uma atitude isolada de uma pessoa ou algumas pessoas em uma Parada que reúne milhões de pessoas pertencentes a um grupo que só no Brasil soma muito mais de 10 milhões de pessoas, lhe dá o direito de conclamar os católicos a “baixar o porrete” nos gays ou algo parecido? (fato pelo qual o senhor foi chamado ao ministério público).

Será que gays poderiam usar desta mesma artimanha, quando um pastor evangélico quebra a marteladas um dos símbolos mais amados da Igreja Católica?

Poderiam homossexuais conclamar os católicos a “baixar o porrete” nos evangélicos?

Ou neste especifico caso seria uma atitude isolada? “É” uma atitude isolada, Pastor. Julgar todo um povo por atitudes de um, não é arma justa nem legitima.

É neste tipo de mundo que o senhor quer viver Pastor Malafaia uma guerra declarada entre tudo e todos? Ou o que o senhor realmente quer é que todos abaixem a cabeça ao senhor, ao que o senhor ACHA, ao que o senhor SUPÕE, ao que o senhor IMAGINA, ao que o senhor ACREDITA?

De que forma o senhor ama os gays?

Desde que eles não sejam gays? Desde que se limitem ao lugar de cidadão de segunda categoria reservado a eles, onde se tem muitos deveres, poucos direitos e as vozes caladas?

AH… A Mãe de Jesus Cristo, A Nossa Senhora, A Virgem Maria tão amada. Foi a ela que entreguei meus filhos quando nasceram. E é a ela que peço TODOS os dias que cubra com seu manto sagrado, MEU FILHO GAY, quando ele sai as ruas do país CAMPEÃO MUNDIAL EM CRIMES HOMOFÓBICOS, sem LEI que o proteja, sendo alvo certo e constante do ÓDIO incessantemente propagado. Porque Pastor, eu sei q NESTE caso o amor realmente é inconteste e incondicional. Foi ela A NOSSA SENHORA, a protetora dos MEUS filhos que eu vi ser quebrada a marteladas e pontapés, mas em nome dela, eu peço a PAZ, porque ela é AMOR.

O alento a meu coração de mãe, é que existem bons cristãos no mundo, vide o Padre Jesuíta Luís CorrêaLima e o Pastor Ricardo Gondim que assopram vida e luz em almas torturadas por pessoas como o senhor! Isso é ser cristão, amar, compreender, evoluir, aceitar. Isso é ser HUMANO, isso é viver no AMOR. Ser gay não se escolhe, não se ensina, homossexualidade não se transmite por contagio.

Quando o senhor se refere a “ditadura gay”, o senhor se refere a que exatamente? Alguém já ouviu falar em Bancada Gay? Televisão Gay? Radio Gay? Ministro Gay? Tem certeza que é gay a ditadura que esta sendo instaurada?


VIVA E DEIXE VIVER PASTOR.

Gays são uma minoria e contam apenas com suas vozes nessa luta tão injusta.

Por isso eu peço a TODO, O POVO LGBT, seus pais, suas famílias e seus amigos que se assumam num ato político por um Brasil e um mundo melhor.

Vamos lutar para que TODOS os brasileiros tenham seus direitos assegurados pela Constituição. Mesmo que para isso se criem leis especiais.

ATÉ O DIA 6 DO MÊS DE ABRIL DESTE ANO DE 2012, 106 JOVENS HOMOSSEXUAIS FORAM TORTURADOS CRUELMENTE COM TODO TIPO DE REQUINTE, OLHOS PERFURADOS, DEDOS ARRANCADOS, CRANIOS ESMAGADOS E FINALMENTE MORTOS. E ESSE NÚMERO NÃO PARA DE CRESCER. POR TUDO ISSO…

EU, MULHER, HETEROSSEXUAL, CASADA, BRASILEIRA, MÃE, CRENTE EM NOSSA SENHORA, CIDADÃ DE UM PAIS LAICO E DEMOCRATICO, PEÇO A APROVAÇÃO DA PCL 122 !!!

Eu dedico a minha luta, as “MÃES PELA IGUALDADE” algumas das quais já tiveram seus filhos levados pela homofobia e mesmo assim se levantam TODOS os dias para defender e proteger TODOS os filhos gays.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Panteímo e panenteísmo: distinção necessária



Por Leonardo Boff

Uma visão cosmológica radical e coerente afirma que o sujeito último de tudo o que ocorre é o próprio universo. É ele que faz emergir os seres, as complexidades, a biodiversidade, a consciência e os conteúdos desta consciência pois somos parte dele. Assim, antes de estar em nossa cabeça como idéia, a realidade de Deus estava no próprio universo. Porque estava lá, pôde irromper em nós. A partir desta compreensão se entende a imanência de Deus no universo. Deus vem misturado com todos os processos, sem perder-se dentro deles.  Antes, orienta a seta do tempo para a emergência de ordens cada vez mais complexas, dinâmicas (portanto, que se distanciam do equilíbrio para buscar novas adaptações) e carregadas de propósito. Deus comparece, na linguagem das tradições transculturais, como o Espírito criador e ordenador de tudo o que existe. Ela vem misturado com as coisas. Participa de seus desdobramentos, sofre com as extinções em massa, sente-se crucificado nos empobrecidos, rejubila-se com os avanços rumo a diversidades mais convergentes e interrelacionadas, apontando para um ponto Omega  terminal.

Deus está presente no cosmos e o cosmos está presente em Deus. A teologia antiga expressava esta mútua interpenetração pelo conceito “pericórese”, aplicada às relações entre Deus e a criação e depois entre as divinas Pessoas da Trindade. A teologia moderna cunhou outra expressão, o “panenteísmo” ( em grego: pan=tudo; en= em; theos=Deus). Quer dizer: Deus está em tudo e tudo está em Deus. Esta palavra foi proposta evangélico Frederick Krause (l781-1832), fascinado pelo fulgor divino do universo.

O panenteísmo deve ser distinguido claramente do panteísmo. O panteísmo (em grego: pan-tudo; theos=Deus) afirma que tudo é Deus e Deus é tudo. Sustenta que Deus e mundo são idênticos; que o mundo não é criatura de Deus mas o modo necessário de existir de Deus. O panteísmo não aceita nenhuma diferença: o céu é Deus, a Terra é Deus, a pedra é Deus e o ser humano é Deus. Esta falta de diferença leva facilmente à indiferença. Se tudo é Deus e Deus é  tudo, então é indiferente se me ocupo com uma menina estuprada num ônibus no Rio ou com o carnaval, ou com indígenas em extinção ou com uma lei contra a homofobia.  O que é manifestamente um erro, pois diferenças existem e persistem.

Tudo não é Deus. As coisas são o que são: coisas. No entanto, Deus está nas coisas e  as coisas estão em Deus, por causa de seu ato criador. A criatura sempre depende de Deus e sem Ele voltaria ao nada de onde foi tirada. Deus e mundo  são diferentes. Mas não estão separados ou fechados. Estão abertos um ao outro. Se são diferentes, é para possibilitar o encontro e a mútua comunhão.   Por causa dela superem-se as categorias de procedência grega se contrapunham: transcendência e imanência. Imanência é este mundo aqui. Transcendência é o mundo que está para além deste.  O Cristianismo por causa da encarnação de Deus, criou a categoriatransparência. Ela é a presença da transcendência (Deus) dentro da imanência(mundo). Quando isso ocorre, Deus e mundo se fazem mutuamente transparentes. Como dizia Jesus: “quem vê a mim, vê o Pai”. Teilhard de Chardin viveu uma comovente espiritualidade da transparência. Bem dizia:” O grande mistério do Cristianismo não é a aparição, mas a transparência de Deus no universo. Não somente o raio que aflora, mas o raio que penetra. Não a Epi-fania mas a Dia-fania” (Le milieu divin 1957, 162).

O universo em cosmogênese nos convida a vivermos a experiência que subjaz ao panenteísmo: em cada mínima manifestação de ser, em cada movimento, em cada expressão de vida estamos às voltas com a presença e a ação de Deus. Abraçando o mundo, estamos abraçando Deus. As pessoas sensíveis ao Sagrado e ao Mistério tiram Deus de seu anonimato e dão-lhe um nome. Celebram-no com hinos, cânticos e ritos mediante os quais expressam sua experiência de Deus. Testemunham o que Paulo disse aos gregos de Atenas:”Em Deus vivemos, nos movemos e existimos”(17, 28).


sábado, 7 de abril de 2012

Ser um homem feminino



Nem tudo são flores, mas flores são tão lindas, delicadas e necessitam tanto de atenção. E assim começo este texto: Delicados, frágeis, românticos e temperamentais, essas são as características das personagens de hoje. De acordo com a visão midiática são os histéricos, engraçados, são os cabeleireiros, estilistas de novelas. São bichinhas, mulherzinhas , viados, afeminados (o termo correto é efeminados) Mas na verdade quem são eles?

Segundo Foucalt são sabotadores e marginais da heteronormatividade. São a tropa de choque da visibilidade gay. E ele tem razão, são eles que sofrem as agressões, que são apontados por serem diferentes. Além disso, são tidos como a vergonha da espécie gay. “Pare de dar pinta”, “Fale como homem”, “Não use maquiagem”, são frases que eles ouvem mais de 10 vezes ao dia. É muito comum ler em salas de bate-papo, chats o seguinte: “Nada contra mas não curto afeminados”, “Curto homens”. Homofóbicos como Rica Perroni dividem em duas classes: Gays e Viados. Desde quando ter características mais femininas te fazem mais gay que o outro? Até onde eu sei, os dois sentem o mesmo tipo de desejo e atração pelo sexo semelhante e geneticamente são iguais.

“ São eles que conquistam o espaço. Espaço este que muitos gays "não concordo com os efeminados" usufruem sem se quer ter movido uma palha - Gays estes que, sozinhos com amigos feminilizam-se de 'brincadeira'. (Cláudio DeLarge)”.

Para mim eles não são vítimas, são sobreviventes, são vencedores de uma batalha diária por respeito, apenas isso, respeito. De uns tempos pra cá, felizmente as coisas parecem estar mudando, de personagens caricatos da tv , estão passando a os dar um maior espaço, porque querendo vê-los ou não eles estão por toda parte é o Maxxie de Skins , o Kurt de Glee, oIan de 90210 provando que são humanos e tem conflitos como qualquer um de nós.

Agora eu faço uma pergunta e quero que tirem pelo menos 10 segundos do precioso tempo de vocês para pensarem sobre. Vocês acham mesmo que eles forçam ser assim? Que mudam voz, gesticulam demais e usam roupas diferentes por sede de atenção? Se sua resposta foi sim, você faz parte da maioria ou seria da parcela ignorante da população? Eles nascem assim, eles são assim, sua essência é essa e muitas vezes eles não percebem que dão pinta. E se derem, qual o problema? Por que eles não podem ser fashion e ousados? Por que não podem sair maquiados? Por que não podem dançar e gritar as músicas de suas divas? Eles não querem ser mulheres, eles querem ser eles.

Já dizia o poeta “Ser um homem feminino não fere o meu lado masculino”. São homens como eu, como você, como o hétero pegador da esquina, como o casado com filhos atravessando a rua. Eles apenas sentem, choram e são mais delicados, carinhosos, amigos, e o que há de ruim nisso? Vejo um quê de belo, de poético, isso é vida, isso é arte. Não é à toa que são criativos, são idealizadores e empreendedores natos. Há aqueles que nascem divas, sabem como chegar e sair sempre deslumbrantes. Outros nasceram com sentimentos apurados, são os conselheiros, os melhores amigos, os bons filhos.

Eu sei que vocês sofrem, sei que não agüentam mais se verem caricaturados em programas de tv , que choram a noite baixinho, que tem sonhos e que muitas vezes desacreditam neles. Levantem-se e lutem! Se unam, só vocês sabem o que passam. Eu sei também que muitos de vocês nunca vão assumir que são afeminados, que fecham os olhos para tudo isso. Eu entendo, assumir seria para muitos o fim da vida social. Ser gay , se assumir gay é tendência hoje, é algo falado, discutido, ato de coragem, mas abrir a gaveta do armário e se assumir afeminado é quase uma sentença de morte na nossa sociedade.

Sei o quanto é difícil para muitos ter alguém. Os caras sempre somem após o primeiro encontro e você fica se perguntando aonde eu errei? Por que sou assim? Os proíbo de pensarem isso de novo. Quero que pensem que se alguém não os aceita ou tem vergonha de vocês, não merece chegar perto desde coraçãozinho. E o amor? Ah o amor acontece quando estamos bem com nós mesmos. Ele flui rapidamente quando emitimos boas vibrações. Até porque não a nada mais bonito que nos amarmos, com nossos defeitos e imperfeições. Se nossas qualidades são vistas como defeitos pelos outros, o que nos resta a fazer é acreditar que um dia deixarão de evitar o espelho.

Você já se olhou no espelho hoje? Já viu o quão belo você é? Viva! Seja você! Dance, cante, se pinte, dê pinta, grite, vista-se e não mude a sua essência.

“Balanço o cabelo e arrebito o nariz, o que eles dirão de mim, para mim pouco importa e dai tô tão bem” (Roupa de Ontem – Anna Livia).

E quer saber? Danem-se os rótulos. E nunca deixe de fazer o que te faz bem. Eu particularmente amo usar maquiagem e se isso fere código de ética ou mancha a imagem da sociedade gay, que eles vão a merda! Os outros são os outros. Por que somos feitos de diferenças e elas dão as cores e o brilho a vida. E eu não quero viver uma vida sem cores. #Tricotei!


Ps: Dedico aos meus leitores que pediram esse tema e a todos os protagonistas dessa história. Se quiserem sugerir temas mandem para gutoangelico@gmail.com    

Beijos


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