sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Relacionamento aberto: psicanalistas divergem - Perdas e ganhos dos casamentos abertos

Perdas e ganhos dos casamentos abertos

União mais honesta ou imaturidade? As opiniões de Regina Navarro Lins e Flávio Gikovate sobre o poliamor

Ricardo Donisete, especial para o iG São Paulo



Com uma admirada relação de 18 anos com a atriz Julia Lemmertz, o global Alexandre Borges, de 45 anos, causou polêmica em entrevista recente ao declarar que o casamento aberto pode ser sim uma opção de relacionamento. Para a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, relações que abrem mão da exclusividade sexual são tendência para o futuro. Mas qual futuro é esse? “Não é possível fazer uma previsão precisa, em 10, 20 ou 30 anos”.

Na opinião de Regina, os modelos tradicionais de relacionamento não estão dando conta de atender as necessidades de grande parte da população. “O número de pessoas infelizes, insatisfeitas e frustradas no casamento é imenso. Por quê? Porque nós vivemos sobre o mito do amor romântico, que prega várias mentiras: que as pessoas vão se transformar numa só, que nada mais vai lhe faltar, que o amado vai te completar em tudo, que quem ama só tem desejo pelo amado, não tem desejo por mais ninguém. É calcado na idealização”, analisa a psicanalista. Flávio Gikovate, psicoterapeuta e autor de vários livros, entre eles “Uma história do amor... Com final feliz” (MG Editores), discorda da ideia de que o casamento aberto possa ser cada vez mais comum. “Em minha experiência clínica e numa visão realista, não vejo os casais buscando esse tipo de contexto. A infidelidade exclusivamente sexual continua não sendo interessante para a maioria das mulheres, de modo que muitas acabam se envolvendo sentimentalmente. O envolvimento sentimental fora do casamento é sempre problemático e com frequência acaba sendo causa de separação”, aponta ele. “O casamento aberto é uma tentativa de conciliar o aconchego romântico com a liberdade das pessoas solteiras, e isso não creio que venha a funcionar. Não creio sequer que venha a ser ansiado pelas pessoas mais vividas e maduras”, completa. 


A ideia do casamento aberto floresceu de maneira mais evidente nos anos 60 e 70, como uma das inúmeras consequências do surgimento da pílula anticoncepcional. “A ideia era dar liberdade sexual especialmente para as mulheres e para quem já estava casado e não havia tido experiências sexuais com outros parceiros antes do casamento, que acontecia muito mais cedo e com as moças inexperientes”, explica Gikovate.

Na época, ficaram famosas as chamadas “Festa das Chaves”, bem representadas no filme “Tempestade de Gelo” (1997), estrelado por Kevin Kline e Sigourney Weaver. Nessas ocasiões, os casais colocavam as chaves dos seus carros em um pote. No final da noite, as mulheres pegavam um chaveiro qualquer no recipiente e passavam a noite com o dono dele, que obviamente não poderia ser o seu marido. 

Apesar de aberto, o casamento que permite relações extraconjugais também tem regras. “Toda relação é regida por códigos, que podem ser verbalizados ou não. As pessoas combinam o que elas querem pra vida delas. Algumas pessoas exigem que o outro conte. Eu acho uma bobagem, você tem que ter um espaço só seu, que o outro não entra. Eu já vi casais que dizem: ‘você só pode transar uma vez com cada pessoa’”, conta Regina. “Às vezes não precisa dizer ‘não gosto disso ou daquilo’, basta um comentário sobre um filme que você viu, o jeito que você conta, o sorriso que você dá. O outro vai percebendo o que você espera da relação e o que não espera”, prossegue a psicanalista. 

“A regra é que não pode haver envolvimento emocional. Isso é curioso, pois não é coisa que se decide”, comenta Gikovate, jogando “água fria” na ideia do poliamor. “A monogamia não é natural e isso parece impressionar muito algumas pessoas. Acontece que quase tudo o que fazemos é antinatural: aprender a não urinar na cama durante a noite, respeitar as regras básicas de etiqueta”, continua o psicoterapeuta. “Outro aspecto é a dificuldade atual de homens e mulheres de aceitarem limitações ao pleno exercício de seus desejos, coisa própria de uma cultura que não valoriza esforços e sacrifícios e está sempre muito voltada para o prazer – como se todos tivéssemos nos transformado em crianças mimadas que não podem ser frustradas ou contrariadas”, finaliza. 

Na defesa das relações múltiplas, Regina diz que as pessoas só precisam responder a duas questões quando estão numa relação. “As pessoas não têm que se preocupar se o seu parceiro transa ou não transa com alguém. Homens e mulheres só deviam responder: Me sinto amado? Me sinto desejado? Se a resposta for sim para as duas, o que outro faz quando não está comigo não me diz respeito, não é da minha conta. Se as pessoas entendessem isso, iam viver muito melhor”, sentencia.


2 comentários:

Priscila Anjo disse...

Que postagem incrível!
"A monogamia não é natural". Engraçado essa naturalização das coisas, né? Bourdieu fala disso, quando afirma que as coisas foram tão interiorizadas, que pensamos ser naturais.
Esse estranhamento precisa acontecer mesmo. Independente de discordar ou não, que seja por opção pessoal, e não por acreditar que "essa é a lei natural das coisas".
Monogamia é uma invenção, construída culturalmente. Precisamos ter consciência disso, assumindo ou não um relacionamento aberto.
Se é evolução ou apenas a realização de desejos e impulsos, é preciso pensar.
Mas o importante é que haja amor e respeito num casamento. Não adianta ficar casado/a por obrigação, pelo acordo, e não haver respeito, amor, desejo.
Bom, como disse a psicanalista Regina, vai levar um tempo. Mas as coisas estão mudando. Já falamos sobre o assunto! =]

Anderson Luiz de Souza disse...

Priscila, como sempre voce por aqui em minha casa lendo minhas postagens e a cada dia me conhecendo mais e melhor rsrsrs é um prazer ter voce "em minha casa". Entre e fique a vontade, afinal ela é nossa casa!

Sim! é preciso sim acontecer este estranhamento, eu vou além, tem que haver um confrontamento de nossas ideias e conceitos sobre a relação do casal, pois o que percebemos hoje? UMA FARSA! isto mesmo, uma farsa. O casamento baseado na monogamia é uma farsa, mas os homens não aceitam serem "traídos", mesmos quando eles traem e até mesmo quando suas esposas descobrem. Mas mesmo nestas situações, quando o homem descobre ter sido "traído" (como que se fosse ele dono do corpo de sua mulher), não aceita e põe fim a um casamento de anos por não suportar a ideia de que não é dono exclusivo do corpo de seu cônjuge.

Mas eu vejo um ponto negativo, como diz Gikovate, não há uma receita para impedir o envolvimento emocional, pois quem pode mandar nos sentimentos do coração? De fato é um assunto polemico eu tenho uma opinião formada a respeito disto (voce sabe bem qual é) rsrs, e hoje temos que estar abertos para ideias que se contradizem ao que chamamos (ou chamam, já que eu não chamo assim) "natural".

Com a liberdade feminista e a mulher ocupando a cada dia mais espaço num mundo onde só homens andavam, ela descobriu que tem sim desejo por outro homem, coisa mais que comum, pois isto acontece com os homens porque passam grande parte do dia fora de casa em seu trabalho, em seu mundo externo, mundo que as mulheres também estão ocupando agora (já não era sem tempo) e descobrindo novos olhares, novos sonhos, novas fantasias, enfim, o mundo onde só homens habitavam e as "solteiras", agora é habitado em grande escala por voces, mulheres sensacionais que são, e por consequencia há um desejo crescente em se ter uma relação mais aberta (repito: já não era sem tempo rsrs), Mas claro que há de se analisar caso a caso, casal a casal para que se saiba em que terreno vão pisar e em que mares navegar, mas o princípio é apenas um: RESPEITO MÚTUO! Respeito na coletividade e na individualidade.

Obrigado pelo comment Pri Anjo

Abraço (beijo) carinhoso.

Anderson

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