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terça-feira, 2 de outubro de 2012

Nota Zero em "Ética Cristã" para o Jesus dos Evangelhos



Por  Levi B. Santos

1.  Muito embora Jesus tenha denominado o Rei Herodes de “raposa” ─, não convém ao crente assim proceder. Devemos dispensar o melhor tratamento às autoridades, mesmo que elas tenham, às vezes, condutas irregulares e hipócritas. Está escrito: “Toda autoridade provém de Deus”.

2 . Muito embora Jesus tenha cognominado de “sepulcros caiados”, os homens da Lei que estavam sentados na cadeira de Moisés ─, não é conveniente ao cristão assim o fazer. A boa ética manda que o crente tenha sabedoria e controle emocional, a fim de que não caia na tentação de detratar as pessoas.


3 . Muito embora Jesus não tenha encontrado onde repousar a cabeça ─, não é conveniente ao crente está falando mal das autoridades religiosas que enriqueceram graças aos seus extraordinários dons. As mansões, os carrões, as chácaras e o mar de riquezas que essas autoridades possuem, foram frutos do seu honesto trabalho. Está escrito: “Todo obreiro é digno do seu salário”.


4. Muito embora Jesus em sua missão tenha ido buscar pessoas para serem discipuladas, “extra-muros” do Templo ─, não é de boa norma, o crente organizar grupos para o ensino da palavra por aí afora. O Templo é o único local adequado para esse fim. Está escrito: “Alegrei-me quando me disseram: vamos à casa do Senhor”.


5 . Muito embora Jesus tenha entrado no templo, armado de chicote para expulsar os poderosos que faziam da Casa de Deus uma “bolsa de valores” ─ não é conveniente ao crente de forma desastrada, assim se comportar. Está escrito: “Não é por força nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor”.


6 . Muito embora Jesus tenha reprovado os religiosos de sua época, por adorarem os primeiros lugares no templo ─, não é ético para o cristão assim proceder. Em todas as igrejas, é de praxe, que os primeiros assentos sejam destinados às autoridades eclesiásticas. Está escrito: “A quem honra, honra”.


7 . Muito embora Jesus não tenha tomado uma atitude enérgica, quando os discípulos seus, invadiram um roçado de milho alheio, para saciar a fome num dia consagrado ao descanso ─, não convém ao crente assim proceder. Mesmo estando faminto, não ouse tirar nada de alguém, sem plena autorização. Está escrito: “Pedi e dar-se-vos-á”. Portanto, basta dobrar os seus joelhos e orar.


8 . Muito embora Jesus não tenha respondido a pergunta de Pilatos, sobre “o que era a verdade” ─, não convém ao crente, deselegantemente, silenciar diante da pergunta feita por uma autoridade. Peça a Deus sabedoria e Ele porá a palavra certa em sua boca. Está escrito: “Se estes se calarem, até as pedras clamarão”.


9 . Muito embora Jesus tenha dito de forma pública, que os escribas e fariseus, apesar de serem dizimistas, negligenciavam o mais importante, como a justiça, a misericórdia e a fé ─, é atitude reprovável e contrária à ética, o cristão expor aos quatro cantos do mundo uma simples falta (perdoável) dos seus superiores, ainda mais, se eles estiverem sentados na cadeira de Moisés. Está escrito: “E o oferecerá com a oferta sobre o altar, e assim o sacerdote fará expiação por ele, e será limpo”.


10. Muito embora Jesus tenha se posicionado contra os fariseus que enfrentavam todo tipo de obstáculos para ganhar almas, ocasião em que os denominou de duas vezes filhos do inferno ─, não é de bom alvitre o crente tomar tão irredutível atitude. Está escrito: “Mas que importa? Contanto que Cristo de qualquer modo, seja anunciado, ou por pretexto, ou por verdade... .” (Filipenses 1: 18).



P.S.: Este Manual de Ética foi postado originariamente no "Ensaios & Prosas" em março de 2009 com o título  - "Dez Conselhos Legalistas Sobre Ética Cristã".

quarta-feira, 11 de julho de 2012

O que um ateu pensa da morte



Por  Marcio Alves

Já escrevi alguns textos sobre a morte, dentre eles talvez o mais importante seja mesmo o profundo e filosófico “A morte em dois momentos”, mas sabendo que constantemente estamos sempre mudando e consequentemente atualizando nossa maneira de ver e viver a vida, resolvi então escrever o que penso hoje sobre a morte.

Um texto simples, sincero e objetivo sem o rigor do academicismo que muitas vezes atrapalha mais do que ajuda na compreensão dos leitores.

A morte, assim como o nascimento, são as duas únicas coisas que temos que passar sozinhos, embora muito mais a morte seja mesmo o momento mais angustiante e dramático de toda nossa existência, não o depois, mas aqueles momentos que a antecedem, que eu chamo de “pré-morte”, que é aquelas experiências de quase morte que muitos de nós experimentamos em algum momento de nossas vidas.

Nada mais profundo do que a experiência de ir ao velório de um amigo ou parente nosso, pois só nesses momentos, da “pré-morte” e da “morte do outro” é que são capazes de tirar o ser humano de sua anestesia diária, como trabalho, diversão, lazer, hobby e etc, levando a refletir seriamente sobre a sua própria morte.

Pois saiba meu amigo leitor, que uma coisa é você ler alguns livros e pensar sobre a morte de maneira geral, outra completamente diferente é pensar a sua própria morte. É como você ler sobre pessoas com câncer, e, um belo dia você ir ao medico para fazer exames de rotinas e sem “querer” descobrir que esta com um câncer. Consegue agora perceber a diferença?

Para aqueles que nunca enterraram seu próprio amigo, pai, mãe, filho ou irmão, ou não vivenciaram uma experiência real de “pré-morte”, vão apenas entender com o intelecto este texto, pois só aquele que já vivenciou uma das duas maneiras de estar “cara a cara” com a morte é que irá conseguir ir para além do intelecto “sentindo” de maneira visceral as palavras escritas.

Assim como o câncer que na verdade é uma morte lenta e progressiva, a própria iminência de uma possível morte por outras maneiras e experiências vem para por em xeque tudo que achávamos ser importante em nossas vidas, e para colocar uma pergunta crucial que constantemente tentamos esquivar dela: “Porque e para que viver?” “Faz sentido a vida que temos levado?” “Qual o sentido real de viver?” (As três perguntas na verdade é uma só, apenas feita de maneiras diferentes para você refletir melhor)

Não importa se você seja religioso ou ateu, pois na verdade, no fundo no fundo minha opinião é que não existe na pratica uma separação entre ateu e religioso quando falamos da morte, embora na teoria exista sim uma divisão. É que não acredito na transformação e mudança na natureza humana quando falamos da pessoa acreditar ou desacreditar na religião e/ou em Deus, pois se sendo ateu ou religioso, continuamos sendo humanos, demasiado humanos, e como os existencialistas já falavam, somos seres em angustia, sendo a angustia uma marca registrada da natureza humana.

A única diferença entre o religioso e ateu em relação à morte é no autoengano; pois o primeiro (religioso) se engana na certeza de acreditar que ao morrer vai estar no paraíso, já o ateu com seu pensamento “tranquilizador” de que “morreu acabou”, e que por isso não tem o que se preocupar e ter medo. Mas que falsa certeza esta do religioso e do ateu!

A partir do momento que o homem teve a sua consciência despertada, seja pela própria morte como a maior responsável por isto, ele já se vê mergulhado em angustia, e, por isso mesmo, nós precisamos tanto ocupar nossa mente com tudo que estiver disponível, seja trabalho, festas, e tudo o mais, é como pascal já dizia que o homem que vai caçar, ele caça um animal que ele mesmo não teria a coragem de comprar num mercado, mas ele caça para distrair sua mente, para fugir de estar só consigo mesmo, e com a realidade inevitável de sua própria morte – e este exemplo serve para tudo que fazemos na vida!

Por isto meu caro leitor que chegou até aqui, lendo “pacientemente” esta minha postagem para descobrir como um ateu encara a morte, eu lamento decepciona-lo, mas nós encaramos do mesmo jeito que qualquer outra pessoa encara: com grande angustia, medo, tristeza, dor e duvida em saber que a nossa morte não é uma possibilidade que pode ou não acontecer,  mas uma realidade e certeza absoluta de que nós que aqui estamos, vamos um dia não estar mais....para quem acha que a consciência é um dom, eu diria que tenho lá as minhas duvidas, pois acho mesmo que é uma maldição, e que se os deuses existem mesmo, são cruéis e estão se divertindo com nosso sofrimento.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O poder, a fama e a verdade (se é que há uma verdade)


                O poder tem um efeito tão nocivo quanto qualquer outra droga, isto é fato. O poder causa dependência e por si só a pessoa é incapaz de abandonar este terrível vício. Com certeza você, caro leitor, deve conhecer alguém que sofre deste mau: toxicômanos, fumantes, alcoólatras assim como, políticos, ministros, diretores de empresas e porque não dizer PASTORES?! SIM! Assim como os dependentes químicos que não conseguem por si só abandonarem o vício, o individuo que alcança o poder não intenta abandona-lo, inclusive os PASTORES!

                Quero me ater nesta ultima classe de indivíduos, os pastores, estes talvez sejam os mais difíceis de tratar, pois, estando no engano, enganam; se libertando do engano, continuam, enganando e se enganando e por quê? PELA SEDE DE PODER! Não querem abandonar todo o “sucesso profissional” que já alcançaram e covardemente, permanecem no auto-engano e no engano da religião e continuam iludindo a muitos. Até pode-se dizer que é compreensiva tal postura, pois o ser humano é por natureza ambicioso e a ambição é o desejo, a intenção de alcançar um objetivo e em se alcançando, novas ambições nos arrebatam, sendo que em se tratando de poder, quanto mais melhor. A fome por poder se torna insaciável e renegar ao poder é algo extremamente difícil e doloroso.  O homem (indivíduo) que, no exercício da função, alcança o poder no clericato, dificilmente abandonará suas convicções, mesmo que tenha certeza que está no engano ou que, sendo eu mais “light”, descobre não haver uma verdade absoluta ou uma só verdade, dificilmente terá coragem de retroceder e abandonar o poder que o mantém vivo ou pelo menos que o mantém como “chefe” da organização que dirige, seja ela qual for.

                […] “Em algumas personalidades (e pastores), a conquista de poder pode ser como apanhar uma 'pedra', semelhante a uma droga", escreveu Dan Bobinski , um especialista norte-americano em liderança, num artigo em 2006 . "Mas eventualmente a 'pedra' passa e a pessoa precisa de uma nova infusão de poder - ou uma posição mais elevada de poder - para voltar a sentir-se estimulado. Nenhuma pessoa é tão grande que não possa cair".

O poder como vício dos vícios é substância mais natural do que a canábis, tem sido abordado pelos autores mais respeitáveis ao longo dos tempos: "O poder é doce: é uma droga cujo desejo aumenta com o hábito", escreveu o filósofo Bertrand Russel a meio do século XX. Edmund Burke já tinha escrito há 200 anos: "Aqueles que foram intoxicados pelo poder... nunca o poderão abandonar de livre vontade”. […] (Vitor de Matos).

                É por isto que digo sem medo de errar que muitos pastores (tele-evangelistas ou não) jamais voltarão atrás em sua teimosa fé (mesmo que isto lhes pareça ser o mais sensato a fazer), pois a sede e o doce sabor do poder lhes impede. Muitos até querem abandonar, mas precisam de uma intervenção de fora, não de deus, que é outro que tem uma sede infindável de poder, mas talvez de especialistas em dependentes químicos, só neles estes encontrarão ajuda.

Anderson Luiz de Souza

Licença Creative Commons
O poder, a fama e a verdade (se é que há uma verdade) de Anderson L. De souza é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
Baseado no trabalho em andersonmineiro70.blogspot.com.br.
Perssões além do escopo dessa licença podem estar disponível em http://omundodaanja.blogspot.com/.

domingo, 8 de abril de 2012

Reflexão para a páscoa



Li esta reflexão do amigo Gê Vorib e estou postando, pois, é de fato uma inegável realidade.

Fiz apenas uma pequena alteração no título, o título correto seria:

REFLEXÃO PARA A VÉSPERA DA PASCOA

Que bom seria se todos os corações deixassem-se levar por esse tal sentimento, que tanto dizem emanar dessas datas religiosas.

Natal, réveillon, semana santa, páscoa...são tantas datas festivas, aonde o amor e a conciliação com o altíssimo sacramento é louvada, que até temo por esquecer alguma, todavia, a meu ver, tudo isso não passa de pura hipocrisia, misturada com o desejo de lucratividade, tanto por parte das ordens religiosas, famintas por mais seguidores, não aos seus deuses fajutos, mas por membros fiéis, que venham a somar na contabilidade financeira, como o próprio mercado, sedento pelas moedas, muito mais do que trinta, a engordarem o faturamento, enriquecendo, dessa forma, os patrões, chamados de empreendedores, por ser uma forma mais edificante.

Que bom seria se nada disso fosse necessário ao despertamento dos corações incautos, sombrios e frios, para que o reconhecimento, como irmão, do seu semelhante.

O sistema nos faz egoístas.

O sistema impõe regras devastadoras à evolução que talvez seja maior do que a própria vida, dando-nos deuses egocêntricos, apaixonados por si próprios e, que tanto nos coagem ao seguimento, através de uma fé estranha, ditada pelo o próprio homem travestido de sacerdote, seja de qual religião for.

Lamentável que não seja enxergado no outro a continuidade de si mesmo, sem relevar aos cultos e as datas impostas como santificadas, uma vez que de santo, nada temos, bestiais que somos!

Em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo.

Amém!

Gê Vorib!®

quarta-feira, 21 de março de 2012

Entre a alvorada e o crepúsculo (Gondim)


 


Via Mundo Da Anja



Ricardo Gondim

Acordo. Abro a janela.  O sol invade o quarto sem pedir licença. A vida se adensa em torrente luminosa. Não percebo nada de extraordinário. Apenas a alegria de notar o dia escancarado. A alegria de viver é excepcional. Não existe mal capaz de sufocar o bem que surge assim, em absoluta gratuidade.

As vinte e quatro horas seguintes serão curtas.  A efêmera felicidade se mostrará mais forte que o poder do medo. – “Basta a cada dia seu próprio mal”. Com a alvorada renovou-se o mistério de me sentir renascido das cinzas.

Celebro a vida. Faço festa. Penduro bandeirolas nos salões de minha alma. Enfeito o rosto. Perfumo os braços. Acendo uma vela. Tiro a prataria da gaveta. Limpo as taças. Distribuo convites para uma roda de conversa. Promovo saraus para brincar com rimas.

Faço-me poeta, de tão contente. Se o lamento se intrometer, abraço o amigo. Permito que o velho que existe em mim fale seus aforismos. Respondo ao “por quê?” infantil de meu coração.

Não me condeno a esperar o próximo feriado. Grito ao vento um imperativo: todos os dias merecem atenção indivisível.

Diante do imponderável, quero mostrar-me destemido. Repito: o imprevisível não ameaçará. Não vou parar a minha dança porque alguém alertou sobre o perigo inevitável. Disponho-me a enfrentar qualquer despenhadeiro. Tento fugir das pretensões narcísicas. Todo novo começo é na verdade a continuação de muitas existências e histórias que me antecederam. Antes de mim, a vida já pulsava. Nunca saberei como terminará a corrida que me foi proposta. Sei com certeza que alguém me sucederá.

Convivo com o inferno e o céu que o outro representa. No próximo, encontro tormento e esperança. Seus olhos, frestas magníficas, revelam os monstros e os deuses que habitam as profundidades da alma. Eles são ao mesmo tempo espelhos do amor eterno e da barbárie terrena. Eu também sou o próximo de alguém:  santo e, simultaneamente, depravado. Vivem em mim personagens esplêndidos e sórdidos. Sou ator. Sei o dever de representar diversos papeis. Com maestria consigo transformar-me em herói e vilão. Muitas vezes erro na hora de trocar as máscaras. Conheço o segredo de Pandora e fui batizado no Espírito Santo. Adoro a Deus e simpatizo com a esperteza da serpente.

Nessa ambiguidade, desejo perceber beleza. Não quero ser indiferente à simplicidade das crianças que se beijam roçando o nariz duas vezes, ao altruísmo de quem ousa abrigar a prostituta enferma, ao empenho do enfermeiro que faz serão ao lado do moribundo, à resiliência da mulher que lava o marido que padece de Alzheimer, à doçura da filha que empurra a cadeira de rodas da mãe pelo parque.

Hoje o sol nasceu como um convite à meditação. Em algumas horas, no momento breve em que a noite engolir a luz, devo voltar a pensar na vida, em Deus, em mim. Farei um voto na viração do dia: – Deus, prometo, recitar poesia com a delicadeza que as palavras merecem; ouvir música de olhos fechados, do jeito que oro; e jantar com reverência, como se fosse a minha Última Ceia.

Soli Deo Gloria

segunda-feira, 19 de março de 2012

Uma parábola e o fim do debate arminianismo x calvinismo


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By Roger


A maioria das pessoas sensatas que conheço conseguem conviver bem com as duas realidades: livre arbítrio xpresciência divina, sem o versus no meio.
Já, as poucas pessoas sensatas que conheço conseguem perceber que ambos os termos são exageros etimológicos. Primeiro, porque toda destinação só pode ser “pré”: Não há como darmos um destino para algo a não ser de antemão. Segundo, porque todo arbítrio é livre: Se não for livre não é arbítrio, não é escolha, é imposição.
Se reduzirmos esse antigo embate teológico aos termos “destinação” e “escolha”, veremos que no fundo ele se resume a uma só palavra: “vontade”. Vontade tem, no seu sentido ativo, tudo a ver com futuro.

Daí a conseqüência lógica de, uma vez havendo o exercício da vontade e havendo conseqüências futuras, averiguarmos as "responsabilidades", pelo lado humano ou divino (que como todos sabem deveria ser onisciente).

Eis a relevância do post de Clóvis Onisciência e responsabilidade extraído de um tal de Carl Henry.
Antes de estragar esse lindo debate com minha estranha posição ou estranhas citações me reportarei àquilo que Jesus disse sobre o assunto enquanto andou por essas bandas em carne e osso. O problema é que Ele põe fim à discussão. Tudo começou quando alguém lhe perguntou quem era o seu próximo e ele contou uma historinha que ficou conhecida como parábola do bom samaritano, antes disso ele já havia dito no versículo 21:

"Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e cultos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, pois assim foi do teu agrado."
A historia foi mais ou menos assim:

"Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto.

Aconteceu estar descendo pela mesma estrada um sacerdote 
(que era arminiano). Quando viu o homem, passou pelo outro lado. (pois pensou, se ele está assim foi fruto de sua própria escolha – deveria ter-se previnido ou escolhido um caminho mais seguro - ou da escolha de alguns bandidos, em última análise, é um problema social que vivemos é culpa dessa tirania de Roma e eu não tenho nada a ver com isso, não é "minha" responsabilidade.) 

E assim também um levita (que era calvinista); quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado. (pois pensou, se ele está assim foi fruto do plano de Deus – deve estar sendo punido - ou Deus usará essa situação para punir os assaltantes, quem sabe até tudo não resultará no bem desse pobre coitado, afinal só podemos enxergar esse lado feio do tapete e eu como eleito prefiro permanecer do lado bonitinho). 

Mas um samaritano (que não sacava nada de teologia); estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele
Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele.

No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e lhe disse: 'Cuide dele. Quando eu voltar lhe pagarei todas as despesas que você tiver'. 
(pois pensou, porque ele está assim eu não sei… mas poso fazer disso um plano de Deus para mim, e da minha escolha o plano de Deus pra ele).
Jesus sempre que não dá ponto sem nó e nunca deixou o tapete ao avesso. Pergunta e responde:
"Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?"

"Aquele que teve misericórdia dele", respondeu o perito na lei. Jesus lhe disse: "Vá e faça o mesmo".
A Parábola do bom samaritano põe fim ao debate, arminianismo x calvinismo. No fundo podemos trocar a bel prazer as correntes, católico x protestantes, católicos x ortodoxos, pentecostais x tradicionais e assim por diante. E assim, ele põe fim a todo debate teológico.
Resta-nos então lembrarmos o propósito maior daquela parábola que é mostrar-nos quem é o nosso próximo. Está claro: Aquele que tem misericórdia de nós (que ironicamente não é um arminiano e nem um calvinista).
 

quinta-feira, 15 de março de 2012

(In)descrevendo-te (a minha esposa Rozana)




(In)descrevendo-te

Hoje é teu dia, sua primavera chegou! Homenageá-la com palavras, poemas, seria uma tentativa inútil de tentar demonstrar sua beleza. Beleza esta não externa, mas interna; a que vem do coração. Admirada és pela tua singular beleza de anja, beleza externa, digo. Mas a interna poucos conhecem. Muitos a amam, outros lhe odeiam pelos mesmos motivos… não suportam ver tua liberdade, e ao ver em você tudo o que queriam ser e ter lhe agridem sem ao menos dar-lhe chance de defesa! Mas outros lhe admiram e amam; e estes, tenho certeza, são muitos mais!

Hoje não tenho palavras… falta-me a escrita! E hoje também não quero tê-las… apenas quero falar-te o quão és importante pra mim e nossos filhos. Quão valiosa és pra nós! Diante de tudo que és, apenas em pensar descrever-te já me encabula. Portanto hoje eu não quero palavras, não as tenho, não cabem… não existem.

Quero apenas dizer e demonstrar o quanto te amo…
Você é para mim e nossos filhos a bussola, o norte…
És mãe, esposa, amante, anja e mulher
A mulher!

Anderson Luiz de Souza 

segunda-feira, 12 de março de 2012

Alegrias e perigos de quem escreve



Ricardo Gondim

“Verba volant, scripta manent – Palavras voam, a escrita permanece”.

Discursos inflamados, retóricas contundentes, pregações categóricas nunca alcançarão a densidade da palavra escrita. Do texto nascem as controvérsias.  Quem se atreve na meticulosa arte da redação, deve encarar o cursor como um aceno potencialmente desastroso. Escrever é colocar-se em linha de tiro.

Todo autor se entrega ao capricho do leitor. Suas frases jazem à espera de interpretação, pulsam no aguardo de quem as perscrutem. Sem pressa, com luvas de pelica ou com facas afiadas alguém se atreverá interpretá-las.

Não existe exegese objetiva. Os que antipatizam, viram açougueiros, prontos a retalhar tanto a obra como seu criador. Quem gosta, verá beleza até onde não existe. Vetustos críticos e jovens admiradores se revezarão sobre o texto que lhes chega às mãos.

Alguns criticam o atrevimento de contestar teses que alcançaram consenso no passado. Divergência ao que foi considerado legítimo pela academia, sínodo ou diretoria é visto como doença. “Relativismo!”, xingam. Outros procuram amedrontar afirmando que os argumentos que fundamentais do capítulo fragmentam a “verdade” – só não conseguem explicar o que é uma “verdade fragmentada”.

Sobram os que assumem uma postura discriminatória; desmerecendo o autor antes de analisar a obra. Cegos com as próprias traves e inquietos com os argueiros alheios, psicanalisam a pessoa antes de lerem. Cuidadosos em diminuir quem pouco conhecem, não se incomodam de encarnar o Saliere do filme “Amadeus”; não se conformam que “Deus possa derramar tanto talento sobre devassos como Mozart”. Para alguns, ninguém deve ouvir o alucinado Beethoven ou o homossexual Tchaikovsky; ler  o anticlerical Machado de Assis ou o comunista Graciliano Ramos – “Imagina, gostar de livro escrito por um comunista?”; admirar o adúltero Martin Luther King; gostar do suicida Van Gogh; e nessa linha, sequer acolher os argumentos do escravocrata Paulo de Tarso.

Muitos vivem a idolatria do passado, procurando engessar dogmas, doutrinas, confissões de fé. Daí o susto quando um escritor contemporâneo se atreve lançar critica a Freud, Marx, Lutero, Calvino, Santo Agostinho, Papa Pio XII ou quem quer que seja.

“Sã doutrina” inexiste. Não há um compêndio que abranja as verdades absolutas. A história tanto da filosofia como da teologia nunca deixou de ser tumultuada, conflitiva, discordante. Por isso, se escreveu tanto. Como nem sempre prevaleceram as melhores ideias, mais livros serão escritos. O grupo que resistiu o inquisidor Torquemada ou que viu o anabatista Müntzer ser assassinado gostaria de ter tido a sorte de preservar algumas páginas. Não faz qualquer sentido rasgar um livro com o argumento: “Essa ideia não faz parte da teologia oficial, canônica, da igreja”.

Impossível aceitar que Savanarola, o Concílio de Trento ou a Confissão de Westminster tenham publicado toda a verdade sobre Deus, salvação, igreja. Pentecostais amargaram décadas de preconceito. Eles não tinham uma teologia escrita. Mesmo sem discordar dos pressupostos sistemáticos do Movimento Fundamentalista nos Estados Unidos propunham que o Espírito era capaz de se revelar na comunidade da fé, sem os limites do livro. Sofreram como seita por anos. E, ironia das ironias, os pentecostais passaram a  assumir o papel de apologetas da reta doutrina com inúmeros livros sobre “Seitas e Heresias”.

Daí a primeira barreira do escritor em seu ofício: a autocensura. Sucumbir ao medo é criar platitude. Patrulhamento ideológico, filosófico ou teológico procura intimidar. Mesmices só se perpetuam quando triunfam os que procuram transformar o debate de ideias em confrontos pessoais.

Ao escrever o autor se depara com gente que imagina conhecer tudo, absolutamente tudo. Gente disposta a morrer (e matar) por suas convicções. Ele sabe que sua redação pode cavar mais fundo o fosso que impossibilita o diálogo. Sabe também que sua escrita se estenderá sobre preconceitos aproximando as pessoas mais diferentes. Nietzsche afirmou: “As convicções são inimigas da verdade, bem mais perigosas que as mentiras”.

Muita gente a recitar os mesmos argumentos dá segurança aos que dependem da estabilidade para sobreviver. A ideia pode por abaixo o edifício que abriga e sustenta o intelectual orgânico. Então, melhor abandonar os argumentos e defender a Deus, a santa igreja, a sã doutrina, o partido, a pátria, a raça ou o clube.

Quando o pensamento inquieta, tumultuam-se os estádios, acendem-se as fogueiras de livros, enfiam-se estiletes debaixo das unhas e lincham-se os hereges. Os discordantes, mais que pecadores, merecem o inferno. A página escrita pode custar os olhos, o pescoço. Os livros rasgados, as reações destemperadas à liberdade de imprensa, os receios de que mais pessoas acolham o que foi digitado, distribuído, revela o poder que o escritor possui. Ao empunhar a caneta, dedilhar o teclado e apertar “Send – Enviar” ele cria, destrói, fortalece e angustia.

Soli Deo Gloria

sábado, 10 de março de 2012

Oziel Pereira dos Reis, um amigo que se vai precocemente




Queria poder lhe dar mais do que aquele último abraço apenas um beijo, olhar em teus olhos e dizer: és meu amigo. Mas fui impedido e não ousarei dizer que foi a vontade de deus, apenas direi que quando Jesus nos disse QUE NO  MUNDO  teríamos-mos aflições, esta era uma delas. A morte! Em meu lamento não encontro conforto para a Natiele e o Adrian, para você? Apenas a esperança de vê-lo novamente e relembramos nossos causos, nossas brigas e principalmente nossos momentos alegres.... Mas nem sei se se isto seria possível, pois na certeza de sabermos sobre o que não se tem como saber, erramos em afirmar que existe vida após a morte e há céu e inferno. Eu apenas não sei...[sic]

Jamais falávamos de morte, pois a morte  na juventude é ladra que nos rouba precocemente a vida, a alegria de ver o filhos crescer, o singular prazer de ter um neto em nossas mãos e envelhecer ao lado da pessoa amada… há morte cruel que a ninguém e nenhum desejo respeita... a Deus que nos abandona [sic] te pergunto onde estavas? Contou-lhe seus dias e os determinastes? NÃO! NÃO CREIO! Minha indignação ao parecer ser com Deus é com os que assim pensam. Mas insisto, onde está Deus? O Deus que protege e cuida dos seus….

Ele estava com o bota (Oziel) dentro dele, mas por algum motivo (que não seja dias contados), resolveu não agir, ou não podia e nem tinha como agir! Decidiu leva-lo(?)… foi assim é assim e sempre o será.

Podia ser eu ou outro, mas foi você, para nossa saudade doída, nosso pranto amargurado… nossos olhos vagos com sua imagem em nossas mentes. Vou guardar seu sorriso, tua alegria e tudo de bom que passamos (até as brigas foram boas). Não ousarei dizer que deus estava no controle te conduzindo a morte, isto seria banal e sórdido, mas direi que você foi um exemplo de como viver nossa humanidade sem medo do fogo do inferno. Você soube viver enquanto pôde e sempre estará vivo em nossos corações e bota, eu sei que irei ter contigo um dia de novo………… eu sei, mesmo não sabendo, mas o que nos resta é esperar até que chegue o fim... o fim de nossos dias! Então saberei! Sem querer saber, saberei...

Natiele, meus sentimentos, Adrian, seu pai foi um grande homem… lembre-se sempre disto!

Anderson Luiz de Souza, seu eterno amigo e família: Rozana, Samuel e Thiago



Encerro com este poema de Giogia Jr.

Se Deus é por nós, quem será contra nós?


Chega a pobreza. É magra ossos a mostra,
Risos de pura zombaria e maldade atroz;
Que transforma em inferno o próprio paraíso!
Mas se Deus é por nós, quem será contra nós?

Chega o abandono. A vida é solidão e pó.
Só dialoga conosco a nossa própria voz,
Como é duro e penoso andar perdido e só!
Mas se Deus é por nós, quem será contra nós?

Chega a derrota. Nada que nos encoraje...
Um amigo sequer traz a sua voz.
A derrota é o abismo, o esquecimento, o trágico.
Mas se Deus é por nós, quem será contra nós?

Vem a doença. A moléstia e acabam os nossos dias...
É verdugo e carrasco executor e algoz.
Os dias nunca passam e as noites são vazias...
Mas se Deus é por nós, quem será contra nós?

Chega a morte afinal. É longa a travessia...
Irremediavelmente agora estamos sós.
Ah hora escura, ah hora longa ah hora fria...
Mas se Deus é por nós, quem será contra nós?

Giogia Jr.

Oziel ( o bota) morreu num violento acidente de carro na noite de sexta feira, dia 09/02/2012

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Oziel Pereira dos Reis, um amigo que se vai precocemente de Anderson L. De souza é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Angústia é ganho




Ricardo Gondim

Nascemos entre a bigorna e o martelo. A noção de perigo nos acompanha pela vida e não demoramos perceber: somos mortais. De repente, damos conta: o oceano onde nadamos não tem porto. Sabedores do fim, cansados de nadar contra a maré, provamos um fel chamado angústia.

Não há como fugir, é o medo existencial que faz nascer a angústia. Dela vem o choro que nunca desengasga. A angústia é mãe de pequenos surtos depressivos – que jamais entristecem totalmente. Angústia dói em todas as línguas. E lateja feito dor de dente.

A vida não se deixa domesticar. Não há unguento que cure o sofrimento de existir. E depois de toda obra e toda aventura, sobra a única certeza: a guilhotina descerá no pescoço de todos.

Não se extirpa a angústia dos ossos, da pele, do coração. Não existe antídoto para sua peçonha. André Comte-Sponville afirmou que “somos fracos no mundo, e mortais na vida. Expostos a todos os medos. Um corpo para as feridas, ou para as doenças, uma alma para as mágoas, e ambos prometidos à morte somente… Ficaríamos angustiados por menos”.

A angústia nunca se deixa descobrir. É assintomática. Oxigênio algum resolve quando falta fôlego na alma. Inexistem saídas. Tudo termina em tragédia. Fernando Pessoa constatou sobrarem pratos na mesa. Era dia do seu aniversário e, triste, disse ser “sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio….”.

Todos vestirão luto um dia.

Pascal comparou o sentimento de angústia a homens acorrentados: “Todos condenados à morte, sendo todos os dias uns deles degolados à vista dos outros. Aqueles que restam veem sua própria condição naquela de seus semelhantes, e, olhando-se uns aos outros com dor e sem esperança, esperam sua vez”. No seu pessimismo, resta enlouquecer ou “ se divertir”. Numa equação shakespeariana: fuga ou loucura, eis a questão.

A modernidade tecnológica também se apropriou do jargão antigo:“Consumamos, consumamos, porque amanhã morreremos”. Nenhum país incorporou tanto essa ideia quanto os Estados Unidos. Lá virou o paraíso do consumo, a nova Roma para onde bárbaros desejam emigrar. Na América, rodam duas vezes mais automóveis per capita que o restante da humanidade. Gasta-se mais energia com ar condicionado que toda a produção energética da China. O desembolso com sapatos tênis fica em torno de doze bilhões de dólares. Mas, o consumismo desenfreado atual deixa as pessoas mais contentes ou felizes do que em 1954? Brinquedos caros ou baratos são impotentes para tirar a vontade de chorar.

Onde está a fonte da juventude eterna? A humanidade conseguiu adiar o dia fatídico. Os avanços da medicina se tornaram espantosos. Com o culto ao corpo, países ricos refizeram padrões estéticos. A beleza atual é bem diferente da medieval. A expectativa de vida aumentou mais nos últimos quarenta anos do que nos 4.000 anos precedentes. Cresceu de 53 anos – incluindo os países mais miseráveis – em 1960 para 67 anos em 2005. Uma criança nascida hoje viverá em média 122 mil horas ou 5,83 mil dias a mais do que uma, nascida há quatro décadas.



Um desdobramento negativo desses avanços é que as pessoas foram condenadas a passar mais tempo convivendo com a realidade.  A longevidade também faz crescer a angústia.

O mesmo soluço que afligiu filósofos gregos e salmistas judaicos soluça hoje. Mudaram os rótulos. Continuam as fobias do passado. O avanço da psicologia e o progresso da espiritualidade não desmentem que viver é um perigo. A força da angústia resiste a comprimidos e todas as alquimias.

Não sobram muitas escolhas. Jogados ao mundo, resta-nos aprender a viver.

O judeu itinerante, Jesus de Nazaré, falou coisas agradáveis, sem, contudo, evitar as antipáticas.  Sua mensagem convidou homens e mulheres a considerarem a vida como rara e imprescindível. Ao referir-se à verdade, ensinou a necessidade de enfrentar a realidade. Ele deixou as pessoas decidirem se queriam ou não lidar com a angústia. Não receitou fórmulas fáceis de como desatar os nós da alma. Seguidores e ouvintes deviam aprender a usar a força negativa da angústia em favor da felicidade. E não basta um estado transitório – estar alegre, feliz. A vida é um convite a ser.

Jesus acreditou que viver é somar pequenas decisões; é juntar experiências boas e más na construção do ser. Fiel à tradição do Eclesiastes, ele viu que só encontramos algum sentido mínimo de existir ao somarmos choros e risos, desejos e realizações, frustrações e sonhos.

Ninguém precisa exorcizar a angústia, que, assumida, gera sede de transcendência. A vida carece também de um lado sombrio para ser eterna. Além do mais, a angústia garantiu a sobrevivência da espécie. Só os angustiados buscam companhia. A angústia fez com que os primeiros seres humanos desejassem viver em sociedade. Ao notarem que eram frágeis e iguais no sofrimento, deram as mãos.

O grito que se ouviu no Calvário – Eli, Eli, lamá sabactini?, “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” – tornou-se o grito de toda a humanidade. Os lábios de Cristo passaram a representar os negros que morreram em navios fétidos, as mulheres perseguidas na Inquisição, as crianças que se exauriram em trabalho escravo, os curdos que nunca tiveram pátria. O filho de Deus desentranhou a sua angústia, que ressoou pelos quatro cantos da terra, e passou a ser o grito de todos. Cravados com ele no madeiro da solidão, seguimos o seu exemplo e encaramos qualquer sina – Ele é autor e consumador da fé.

 Soli Deo Gloria

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O CREDO DE THOMAS PAINE*




Creio na igualdade do homem; e creio que os deveres religiosos consistem em fazer a justiça, amar a misericórdia e esforçar-se por fazer feliz o nosso próximo. Creio em um Deus, e nada mais; e espero alegria após esta vida.

No entanto, a fim de que não se suponha que eu creia em muitas outras coisas além destas, eu devo, no correr desta obra, declarar as coisas nas quais eu não creio e minhas razões para não fazê-lo.

Eu não creio no credo professado pela Igreja Judaica, pela Igreja Romana, pela Igreja Grega, pela Igreja Turca**, pela Igreja Protestante, nem por qualquer outra igreja que eu conheça. Minha própria mente é minha própria igreja.

Todas as instituições eclesiásticas nacionais, sejam judaicas, cristãs ou turcas, aparentam-me ser nada mais que invenções humanas, estabelecidas para aterrorizar e escravizar toda humanidade, além de monopolizar o poder e o lucro.

Não pretendo condenar, por meio desta declaração, aqueles que crêem de outra forma. Eles têm o mesmo direito às suas crenças assim como eu tenho às minhas. Mas é necessário à felicidade do homem que ele seja mentalmente fiel a si mesmo. Infidelidade não consiste em crer ou deixar de crer. Ela consiste em professar crer algo em que não se crê.

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"Meu país é o mundo, a minha mente é a minha igreja e fazer o bem é a minha religião." T. P.

** Islâmica

* THOMAS PAINE (1737-1809). foi um revolucionário e filósofo político anglo-americano. Participou ativamente do processo de independência dos EEUU, sendo considerado um dos fundadores daquela República. É um dos maiores defensores dos direitos humanos e das liberdades civis de todos os tempos.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Na sola dos “cinco solas”




Confesso que os “defensores da fé” me cansam.

Cansam porque não produzem nada a não ser a crítica de quem pensa diferente. E para julgarem quem pensa diferente, tendo “base histórica” e “bíblica”, muitos deles utilizam-se dos cinco solas, que nada mais são do que afirmações, em latim, sobre aspectos que “delineariam” a confissão de fé cristã nos tempos “reformados” (o excesso de aspas é inevitável).

O interessante é que até os cinco solas são frutos de interpretação (como toda leitura da Bíblia o é) e de um tempo, de uma era. Torná-los imutáveis e monointerpretativos seria uma afronta ao próprio espírito da Reforma que dizem acolher. E quando se tornam engessados, viram arma nas mãos de seus utilizadores e, claro, a favor da “defesa da fé”.

Ok! Mas… que fé?

Aliás, que Cristo? Que Graça? Que Escrituras? Que Glória de Deus?

Não adianta você me tirar da cartola os cinco solas… primeiro tem que me dizer do que você está falando. Pode ser que usemos a mesma frase (em latim) para dizermos coisas totalmente diferentes, entendeu?

Vamos aos exemplos:

Quando eu digo SOLA FIDE (somente a fé), falo da experiência com o sagrado, com o intangível, o numinoso, o transcendente. E essa experiência não é privilégio só dos que têm a Bíblia como “regra de fé e prática”. A fé não tem copyright. Não é propriedade exclusiva de um grupo, muito menos de um livro. Fé é algo tão pessoal e místico que não me cabe duvidar da experiência do outro. Pode ser que ele, o outro, esteja experimentando uma face de Deus que eu ainda desconheço, por isso,este outro merece, no mínimo, o meu respeito.

Quando um “defensor da fé” diz SOLA FIDE, em primeiro lugar ele está falando do seu objeto de defesa. Fé deixa de ser a experiência para ser um objeto de defesa. E se for tido como experiência TEM QUE ser a MESMA experiência dele, se não, não é “verdadeira”. A experiência que é diferente da dele é um inimigo a ser combatido! Para isso envidará esforços, elegerá hereges, acenderá fogueiras. O importante é “batalhar pela fé uma vez entregue aos santos”. Fé, neste caso, é motivo de luta, de guerra, de defesa!



Quando eu digo SOLO CHRISTUS (Somente Cristo), estou falando de uma pessoa. O Deus encarnado, a Palavra feita gente, Emanuel, aquele que traduz em si o amor de Deus pela humanidade, tornando-se humano. De tão humano, divino! É amor tomando forma, cheiro, toque, voz… e, seguindo o seu exemplo, tornamo-nos melhores seres humanos. Quando digo o SOLO CHRISTUS me vem à mente que toda salvação passa por ele, o segundo Adão, e que se o primeiro Adão torna o pecado “universal”, o segundo Adão torna a salvação “universal”, sem mérito ou demérito de quem quer que seja. Se diferente disso, o “erro” do primeiro Adão seria mais forte e mais poderoso do que o “acerto” do segundo Adão. Por que a tal “solidariedade da raça” só vale para o pecado e não para a salvação?

Porém, quando um “defensor da fé” diz SOLO CHRISTUS, ele está dizendo que só a salvação na confissão de fé dele sobre o Cristo. Que só a salvação no NOME de “Jesus”. E quem não confessar esse NOME, por mais que nunca tenha ouvido falar dele, ou por mais que já viva na prática os seus ensinamentos, é um coitado, réu do inferno eterno. Talvez um predestinado mesmo à perdição, obra do grande amor de Deus, que cria uns eleitos para a salvação e outros para torrarem eternamente numa grande fogueira que Ele mesmo criou para lançar aqueles que Ele mesmo determinou que não creriam nEle. Quanto amor! Até porque o CHRISTUS só derramou seu sangue por esses “preferidinhos”, infelizmente deixando de fora todos os outros, tão amados de Deus quanto os eleitos, mas, por sua infinita soberania e poder, incapazes de chegarem à salvação.

Quando eu digo SOLA GRATIA (Somente a Graça), estou falando de graça mesmo, sem divisão, sem preferências. Falo de algo tão louco e absurdo que faltam-me palavras para descrever sua “ação”. A graça é injusta ao salvar gente “do bem” e gente “do mal”, gente “certinha” e gente “torta”, porque é graça, e porque graça atinge gente, seja a “gente” que for. E sua abrangência é ilimitada. Não há confissão de fé capaz de detê-la! Não há conceito que possa diminuir seus efeitos e seus desmandos. Sim, a graça é um desmando de Deus! Subverte toda a lógica e toda a noção que temos de “justiça”. É manifestação de Deus para todos, indistintamente. Creio numa graça que abraça prostitutas, gays, políticos, e até mesmo… religiosos.

Mas, quando um “defensor da fé” diz SOLA GRATIA, em primeiro lugar ele precisa distinguir a graça da graça. Como assim? É óbvio! Existe uma graça “comum” e uma outra, “especial”. Sim, é isso mesmo! Existe uma graça de segunda categoria, tipo aqueles cartões de natal que mandamos pra quem nem conhecemos, desejando simplesmente “boas festas”, e há uma graça caprichada, de primeira, como cartões escritos à mão, cheios de amor, com o cheiro da pessoa amada. A graça “comum” está aí para todos, “quem quiser pode chegar”. Já a graça “especial”, infelizmente (ou felizmente – para eles) não pode atingir a todos, é privilégio dos eleitos, estes sim, podem desfrutar de toda a graça que Deus tem pra dar, mas só pra eles. E graça aqui, deve ser entendida como favor imerecido também, é claro, mas… ai daquele que não observar os mandamentos!

Quando eu digo SOLA SCRIPTURA (Somente a Escritura), estou falando de uma carta de amor, inspirada por Deus, mas escrita por homens, contando histórias de seu povo, conforme seu entendimento temporal das realidades ao seu redor. Nesta carta, que fala muito mais da percepção que os homens, em seu tempo, tinham de Deus, percebo um Ser divino em todo tempo buscando relação com toda a humanidade. Um Deus que tem prazer no diálogo, na amizade, e que como prova maior dessa busca, se diminui, se enfraquece, e se faz homem, não porque “não tinha outra opção”, mas porque tanto amor tinha que ser demonstrado e vivido na sua completude, no ser igual ao ser amado. SOLA SCRIPTURA se manifesta quando percebo a carta de amor em toda sua amplitude e carinho, culminando na Palavra encarnada, o CHRISTUS. Por isso, qualquer interpretação que fuja do CHRISTUS e do amor encarnado nEle, causa-me estranheza. Aliás, o SOLA SCRIPTURA deve sempre levar em conta que QUALQUER leitura já é, em si, uma interpretação, logo, uma aposta e, se tanto, passível de erro.

Porém, quando um “defensor da fé” fala SOLA SCRIPTURA, ele está falando de um MANUAL. E, se é um manual, tudo está ali, resolvidinho, respondido, com a seção de “perguntas e respostas” completa, sem variações. Pecou? O manual traz o castigo, a forma de reprimenda, e o modelo de re-aceitação. Com o manual, é fácil saber quem é o certo e quem é o errado, afinal a equação é simples: faz tudo o que o manual diz: é bom! Vacila em artigos do manual: é mau! E tudo está lá, detalhadamente. Pastores são ungidos do Senhor, logo não devem ser questionados. Gays queimarão no fogo eterno. Mentirosos, orgulhosos, avarentos, ops… pulemos essa parte (aqui o manual deve ter cometido algum equívoco).

Finalmente quando eu digo SOLI DEO GLORIA (Glória somente a Deus),  penso num Deus que é glorificado em todo o mundo, por gente de todas as tribos, raças, línguas e nações que, mesmo não falando “O NOME”, amam uns aos outros, praticam o bem, são capazes de dividir, de compartilhar. Vejo Deus glorificado nas ações de uma Madre Teresa de Calcutá, repartindo sua vida entre os leprosos de uma índia fragmentada pelas castas, da mesma forma que vejo a glória de Deus num homem como Ghandhi, capaz de liderar uma revolução não armada e que influenciará um pastor negro nos Estados Unidos a fazer a mesma coisa. Vejo a glória de Deus quando milhares de pessoas, de todos os credos, gêneros e cores se unem numa corrente de solidariedade, como vi de perto em minha cidade, Teresópolis, atingida por uma tragédia sem precedentes em janeiro de 2011.

Entretanto, quando um “defensor da fé” diz SOLI DEO GLORIA, ele é capaz de ver a glória de Deus não nas pessoas que se solidarizam, mas na própria tragédia em si. Um Deus que mostra a sua glória através da sua ira! Um Deus que é glorificado mesmo numa atitude insana como a de um louco que invade uma escola e atira em crianças indefesas, matando vidas e sonhos. Um “defensor da fé” dá glórias a Deus por isso, e exalta a Sua soberania. A glória de Deus também é manifesta na destruição dos povos pagãos e finalmente, será exercida em toda a sua plenitude nos tempos finais, quando os eleitos herdarão os céus, e Deus, para a Sua própria glória, lançará os não-eleitos na churrasqueira da eternidade: o inferno!

E quem está certo? Não sei!

Só pretendo com este texto provocar a todos que se julgam donos da verdade. Pode ser uma pretensão descabida, mas tentem fazer esse exercício. Tentem imaginar que o “outro” pode ter razão. Assim como eu mesmo posso estar errado em muitas das minhas “visões”.

Estamos navegando naquilo que não é palpável, logo, tudo o que dissermos será fruto daquilo que somos, daquilo que pensamos, antes mesmo que o texto nos fale. E somos seres sujeitos À mudança, logo, não me cabe o julgamento de quem quer que seja. Que entendamos que, na sola dos “cinco solas”, muitas vezes colocamos nossas conveniências, aquilo que nos protege. Na sola (na base) dos nossos “cinco solas” na verdade estamos nós mesmos, com nossas esquisitices e doenças, logo, nossas interpretações falam muito mais de nós que dos reformadores.

E ainda mais, aos “reformados” cabe uma responsabilidade maior de não estacionarem em Genebra, ou em Wittemberg, ou seja lá onde for… a verdade, se é que concordamos que se manifesta em uma PESSOA, é dinâmica, tenta ouvir o seu tempo, tem o seu linguajar, tenta responder às suas próprias perguntas e não as do passado. Igreja reformada, sim, mas não engessada. Sempre se reformando!

Como disse, pode ser que eu esteja errado, e, se for um dos eleitos, riremos de tudo isso na “eternidade”. E se eu não for, sem problemas, vocês estarão ocupados demais e nem se lembrarão das pobres almas no inferno eterno.

Que Deus nos ajude!



José Barbosa Junior
Crer e Pensar
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